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APOCALIPSES
MCGINN, Bernard. Apocalyptic spirituality treatises and letters of Lactantius, Adso of Montier-en-Der, Joachim of Fiore, the Franciscan spirituals, Savonarola. New York: Paulist Press, 1989.
Introdução
- O consenso interpretativo inicial acerca da literatura apocalíptica costuma ser marcado por uma recepção baseada em ironia fria.
- Desinteresse da mentalidade moderna, científica e racionalista em relação às profecias tradicionais fundadas na revelação divina.
- Perda de viabilidade do apocalipse bíblico entre cristãos crentes devido à desmitologização da mensagem das Escrituras.
- O Livro de Daniel e o Apocalipse de João surgem como exemplos máximos dessa vertente ao exibirem visões bizarras e símbolos exuberantes.
- Surgimento histórico de uma corrente de profetas e publicistas apocalípticos cujos anúncios sobre a proximidade do fim foram superados pelo tempo.
- A permanência de elementos do apocalipsismo literal manifesta-se de modo expressivo em diversos grupos fundamentalistas e carismáticos contemporâneos.
- Sucesso editorial das obras de Hal Lindsey como evidência de milhões de leitores convencidos pelas aplicações literais das profecias bíblicas.
- O fenômeno interpretativo do apocalipse espalha-se para além dos círculos religiosos menos respeitáveis por meio de disfarces seculares.
- Argumentação de J.V. Schall definindo o apocalipse na atualidade como um fenômeno eminentemente científico em vez de religioso.
- Presença de profetas da perdição iminente que baseiam suas leituras em revelações científicas obscuras e controversas.
- As projeções científicas sobre a expansão populacional, a ameaça atômica, as mudanças atmosféricas e a escassez de recursos fundamentam as previsões de destruição da raça humana e do mundo.
- Uso do estilo e da forma da mensagem, além da conclamação à ação, para caracterizar a obra An Inquiry into the Human Prospect, de Robert Heilbroner, como um apocalipse secular.
- O panorama investigativo dos últimos decênios direcionou-se para a compreensão do significado teológico do apocalipsismo nos pensamentos judeu e cristão.
- Multiplicação de estudos sobre as origens bíblicas e intertestamentárias enriquecidos por melhores edições de textos e pesquisas detalhadas para definir o gênero.
- A persistência de desacordos sobre questões centrais caminha paralelamente ao crescimento considerável do conhecimento e do interesse pelo tema nas últimas décadas.
- O reavivamento do interesse pelo papel do apocalipsismo alcançou a teologia contemporânea com reflexões profundas de grandes pensadores.
- Dedicação de teólogos alemães como Ernst Käsemann, Wolfhart Pannenberg, Karl Rahner e Jürgen Moltmann ao significado teológico do apocalipsismo.
- Estudo recente do teólogo suíço H. Mottu sobre as implicações teológicas contemporâneas de Joaquim de Fiore, o principal autor apocalíptico medieval.
- Validação do apocalipsismo como uma preocupação séria para o cristianismo atual demonstrada pela existência dessas recuperações críticas.
- O foco majoritário das pesquisas recentes fixou-se na teologia apocalíptica e na coerência dos sistemas de pensamento.
- Concentração dos trabalhos nos períodos do Novo Testamento e intertestamental, com alguma produção sobre o apocalipsismo cristão tardio.
- A espiritualidade apocalíptica configura-se como uma das áreas menos exploradas pelas investigações, abarcando as maneiras pelas quais o apocalipsismo afeta as ações do crente.
- A presente obra propõe-se a contribuir para o conhecimento da espiritualidade apocalíptica nos períodos patrístico e medieval.
- O escopo do livro afasta-se do pensamento ou da teologia apocalíptica em si, abdicando de esboços históricos gerais ou da resolução de disputas teóricas.
- A busca por detalhes do cenário dos últimos eventos encontra textos mais essenciais em outras fontes fora desta coletânea.
- A seleção dos tratados e das cartas justificou-se pela capacidade desses textos em manifestar como as crenças no fim iminente afetavam a vida dos fiéis.
- Revelação do senso particular do divino no publicista apocalíptico e da consciência de missão que movia os seus esforços.
- A exortação de visões e ações direcionadas ao público leitor constitui o objetivo primordial das obras selecionadas.
- A extensão temporal dos textos abrange quase doze séculos sob a autoria de diversos escritores e circunstâncias variadas.
- Necessidade de introduções individuais para cada uma das cinco seções com o intuito de ambientar as leituras.
- A introdução geral destina-se ao exame de duas questões amplas e de caráter teórico.
- A primeira questão conceitual refere-se ao próprio termo apocalipsismo e aos critérios para julgar quais obras pertencem a essa categoria.
- A segunda indagação avalia a utilidade e a abrangência da noção de espiritualidade apocalíptica ao longo dos séculos.
- A escassez de trabalhos prévios nessa área reduz as presentes observações a guias para investigações futuras, sem pretensão de conclusões fixas.
- O propósito das seleções concentra-se na apresentação das evidências para um público amplo a fim de estimular novos debates.
O Conceito de Apocalipsismo
- O entendimento etimológico do apocalipsismo liga-se à palavra grega para revelação, denotando uma mensagem divina sobre o fim iminente do mundo ou de sua forma presente.
- Ocultamento de debates acadêmicos e de confusões populares por trás dessa definição comum de dicionário.
- A imprecisão terminológica decorre das relações complexas com vocábulos afins como escatologia, profecia, milenarismo, milenarismo quiliástico e messianismo.
- A exigência de explicações preliminares sobre o uso dos termos atua como um dever mínimo dos autores, dispensando o acordo universal.
- A ausência dessas definições ou a interpretação baseada em ideias preconcebidas geram confusões desnecessárias na literatura.
- O apocalipsismo define-se estritamente como uma forma particular de escatologia, espécie de um gênero mais amplo voltado para o fim da história como estrutura de significado.
- Distinção no Antigo Testamento entre uma escatologia profética e uma escatologia apocalíptica.
- Caráter antia pocalíptico da escatologia agostiniana na história cristã posterior.
- A amplitude do conceito de profecia engloba o apocalipsismo, definindo o profeta como uma pessoa inspirada que se crê enviada por seu deus com uma mensagem.
- Inclusão de todos os apocalipcistas na categoria de profetas, sem que a recíproca seja verdadeira devido à especificidade da mensagem.
- O traço distintivo do apocalipsismo face à escatologia geral reside fundamentalmente no senso de proximidade do fim.
- A singularidade do apocalipcista como um tipo específico de profeta decorre tanto da especificação de sua mensagem quanto de seu caráter culto, escrito ou escribal.
- O milenarismo refere-se em termos gerais às crenças em uma futura sociedade terrestre de caráter mais perfeito.
- Inclusão dessas esperanças nos sistemas apocalípticos judeus e cristãos, com destaque para o reino de mil anos de Cristo e dos santos na Terra proclamado no vigésimo capítulo do Apocalipse.
- A importância dessas expectativas quiliásticas não esgota o conteúdo da mensagem apocalíptica, concentrando-se prioritariamente em seu polo otimista.
- A atividade do Cristo que retorna e de outros agentes divinos insere elementos de messianismo no apocalipsismo.
- Reconhecimento do messianismo como um aspecto do todo e não como a totalidade do fenômeno apocalíptico.
- O tamanho dos problemas nominalistas diminuiria caso houvesse um consenso mínimo entre os estudiosos sobre o núcleo do apocalipsismo.
- A controvérsia sobre a melhor forma de compreender o conteúdo apocalíptico persiste na pesquisa anglo-saxã, mesmo em obras que não adotam formalmente o gênero de um apocalipse.
- A maioria das tentativas de listar os componentes essenciais do apocalipsismo baseou-se nos apocalipses judeus do período entre 200 a.C. e 100 d.C..
- Variedade dessas listas atuando como um aviso sobre a complexidade conceitual e a impossibilidade de redução a uma fórmula única.
- A ampliação da definição para abranger as crenças cristãs e judias tardias sobre o fim iminente acentua as dificuldades de uma fórmula única.
- A substituição de listas rígidas baseadas apenas em exemplos judeus primitivos por uma estrutura de temas inter-relacionados mostra-se mais adequada para abranger séculos de tradição.
- O estágio inicial dessa tarefa metodológica evidencia-se pelas observações preliminares apresentadas pelo autor.
- Os interesses centrais do apocalipsismo situam-se na relação entre o tempo e a eternidade, entre a vida humana na história e o plano eterno do reino celestial de Deus.
- Revelação de uma mensagem do reino celestial por meio do livro do vidente apocalíptico.
- Proclamação de um drama histórico em três atos: provação presente, julgamento iminente e salvação futura.
- A inserção implícita ou explícita desse padrão triplo opera dentro de uma visão da estrutura total da história, expressa em vaticínios sobre as eras do mundo ou a sucessão de impérios.
- Esperança na salvação futura dos justos, individual e coletivamente, fornecendo o motivo principal para suportar as provações presentes.
- A superação iminente da morte constitui uma certeza fundamental para o pensador apocalíptico.
- A presença variável desses temas nos apocalipses judeus do período formativo entre 200 a.C. e 100 d.C. moldou o desenvolvimento do apocalipsismo cristão por séculos.
- O apocalipsismo cristão manifestou motivos semelhantes mesmo após o declínio do gênero formal do apocalipse por volta do ano 300 d.C..
- Busca por uma visão universal da história concebida como uma estrutura divinamente ordenada.
- Pessimismo profundo sobre o presente, interpretado como um tempo de crise, degeneração moral, perseguição dos bons e triunfo dos ímpios.
- Otimismo fundado na crença em um julgamento divino iminente para a punição dos maus e a vindicação dos justos.
- A concepção da vindicação assumiu formas variadas, frequentemente milenaristas, sem se limitar a esse modelo.
- A transcendência da morte permaneceu vinculada às esperanças futuras do apocalipsismo desde as suas origens históricas.
- O desdobramento da literatura apocalíptica judia no cristianismo tardio gerou uma dupla descendência expressa em textos apocalípticos e em uma rica literatura visionária sobre o destino da alma após a morte.
Espiritualidade Apocalíptica
- A emergência de uma tradição de espiritualidade apocalíptica secular fundamenta-se na permanência desses grandes temas ao longo dos séculos.
- Reconhecimento das diferenças de substância e nuance contra a rigidez de isolar uma mentalidade apocalíptica única.
- Validação da espiritualidade apocalíptica como uma das vertentes importantes na história da busca cristã por Deus.
- A caracterização da literatura apocalíptica como um instrumento de consolação para aqueles que enfrentam crises e perseguições religiosas constitui um lugar-comum.
- Utilidade inicial desse axioma seguida pelo risco de tornar-se um obstáculo para o aprofundamento do pensamento.
- A ligação entre atitudes apocalípticas e crises profundas — desde a perseguição dos judeus sob Antíoco IV Epifânio até as guerras modernas — foi descrita por Amos N. Wilder.
- Definição da retórica apocalíptica por Amos N. Wilder como a dramatização da hierofania grupal em situações de descontinuidade e caos.
- Atribuição de sentido renovado ao processo histórico no momento de maior anomia por meio de uma revelação extática.
- A exortação à firmeza na hora da provação baseia-se na promessa de que Deus virá em breve para recompensar os justos e punir os inimigos.
- Indagação crítica sobre a exclusividade da crise como causa e da consolação como mensagem única do apocalipsismo.
- A afirmação de Walter Schmithals corrobora que o apocalipsismo supera a mera reação às estruturas causais da realidade existente.
- Rejeição da ideia de causalidade mecânica: a perdição sob Antíoco Epifânio não causou o apocalipsismo judeu, assim como a crise da Igreja no século doze não causou as ideias de Joaquim de Fiore.
- O senso de crise presente atua mais propriamente como ocasião ou contexto do que como força motivadora nesses movimentos históricos.
- O surgimento de estágios importantes da tradição apocalíptica processou-se fora de situações de descontinuidade grave ou de anomia social generalizada.
- A divergência entre as percepções individuais de crise e os julgamentos gerais de uma época ou visões posteriores de historiadores relativiza o peso desse fator.
- Presença de mensageiros do fim na Itália do final do Quattrocento, a Era de Savonarola, vista como uma forma de lidar com as condições de uma época volátil e não como anomalia.
- O apocalipcista define-se melhor como alguém que está à procura da crise e não como quem apenas reage a ela de modo passivo.
- A mentalidade apocalíptica constitui uma modalidade de pré-compreensão e não um simples mecanismo de resposta.
- A sensibilidade apurada diante das transformações gera nos apocalipcistas a necessidade de uma estrutura religiosa capaz de absorver e conferir sentido às ansiedades da existência.
- Essa demanda existencial impulsiona a modelagem da história e das vidas desses indivíduos em formas distintas e reconhecíveis.
- A complexidade dos propósitos de difusão das mensagens apocalípticas ultrapassa a categoria exclusiva da consolação.
- Intenção do apocalipcista em consolar com a vindicação futura, fortalecer para a resistência e despertar para o enfrentamento.
- A preocupação com o sentido e a estrutura da história confere amplas implicações políticas ao apocalipsismo no sentido原da governança do Estado.
- Definição do apocalipse como uma forma de retórica política dotada de dimensões religiosas essenciais.
- A proposta apresentada na obra Visions of the End sugere a divisão do discurso apocalíptico medieval entre os modos a priori e a posteriori, dotados de funções positivas e negativas.
- O modo a priori utiliza o drama apocalíptico herdado e suas figuras simbólicas para conferir significado aos eventos correntes.
- Iluminação e motivação do crente para assumir uma posição mediante o encaixe da situação presente no quadro profético.
- A aplicação positiva do modo a priori ocorre no suporte às estruturas da sociedade cristã ameaçada, enquanto a aplicação negativa incita a resistência a governantes vistos como agentes do mal.
- As etapas primitivas do apocalipsismo assumiram majoritariamente o caráter a priori negativo devido às origens sob dominação estrangeira e perseguição romana.
- A conversão do Império Romano ao cristianismo revelou os usos positivos e de sustentação do apocalipsismo, frequentemente negligenciados por observadores.
- Continuidade do uso negativo para fomentar revoluções, como nos Taboritas da Boêmia do século quinze, ou para a resistência passiva dos Fraticelli no século catorze.
- Emprego frequente para encorajar o apoio à sociedade cristã contra inimigos externos, como o Islã e os mongóis, ou internos, como heréticos e governantes ímpios.
- A atribuição da vitória final a Deus não impedia a convocação do fiel para pegar em armas e lutar ao lado da divindade no drama do fim.
- Existência de numerosos exemplos dessas convocações na história do apocalipsismo medieval.
- As funções a posteriori manifestaram-se após o século quarto por meio de ampliações no cenário tradicional para abrigar reflexões sobre grandes mudanças na sociedade cristã.
- Tentativa de conferir sentido a mudanças drásticas em termos do fim, visto que este confere significado e estrutura à história.
- A conversão do Império Romano e a ascensão do papado à liderança religiosa universal constituem os dois maiores exemplos do modo a posteriori.
- Inexistência de indícios textuais para essas figuras nas Escrituras ou na tradição cristã primitiva.
- Criação desses novos papéis como resposta de autores apocalípticos a mudanças que só podiam ser assimiladas via projeção transcendental no fim dos tempos.
- A concepção do Império Romano Cristão como força de retenção do Anticristo e do imperador como autoridade divina máxima tornava impensável a ausência deles nos últimos eventos.
- Desenvolvimento pleno do mito do Último Imperador do Mundo no final do século sétimo, sustentando que o império não falharia antes da vindicação de sua supremacia sobre todos.
- A relevância do ofício papal impunha de igual modo a necessidade de atribuição de um papel nos tempos finais.
- Os usos a posteriori do apocalipsismo operavam no sentido de apoiar as próprias instituições que passavam pelo processo de apocalitização.
- Validade desse princípio para as lendas relativas ao Último Imperador como ponto supremo de união para a lealdade cristã.
- A atribuição do papel de Anticristo ou de seus predecessores a vários imperadores e reis cristãos encontra precedentes na Bíblia.
- Figuras como Nero e Frederico II atingiram ápices de infâmia que lhes renderam o papel transcendental de Anticristos que retornam.
- O Último Imperador corporificava uma figura messiânica positiva, concebido como guerreiro e flagelo para exercer vingança sangrenta sobre os inimigos e purificar a Igreja.
- O papel apocalíptico do papado apresentou maior ambiguidade na Baixa Idade Média.
- Disseminação de esperanças quanto ao surgimento de uma série de papas santos, denominados pastores angelici.
- Expressão de crença na dignidade do ofício papal associada à crítica aos pontífices correntes que não correspondiam às exigências do cargo.
- A identificação de papas contemporâneos malfazejos ou heréticos com o próprio Anticristo amparou-se na noção escriturística do falso mestre assentado no Templo.
- Apelo a uma iminente restauração messiânica e reforma do ofício petrino, sem significar a rejeição da instituição papal observada posteriormente em hussitas radicais e reformadores.
- O apocalipsismo serviu a uma multiplicidade de propósitos, atuando tanto na crítica quanto na defesa das potências deste mundo.
- Inclusão de dimensões de iluminação histórica e exortação marcial ao lado da mensagem tradicional de consolação e promessa de recompensa.
- Os textos apocalípticos convidam o leitor a uma escolha clara entre o bem e o mal, justificando o forte componente moralista dessas obras.
- Recompensa para a perseverança firme no bem, especialmente na perseguição, e punição para a persistência no mal.
- O tratado de Lactâncio sobre as últimas coisas no sétimo livro de suas Instituições Divinas configura-se tanto como descrição do fim quanto como análise da vida virtuosa.
- Implicação mútua entre virtude e escatologia para o retórico romano cristão.
- Pensadores como Joaquim de Fiore e Savonarola sentiram-se compelidos a anunciar o fim iminente como uma última advertência para que os pecadores abandonassem seus caminhos.
- Agravamento da culpa diante do julgamento vindouro para aqueles que continuassem a rejeitar a mensagem ouvida.
- O moralismo por vezes enfadonho dos autores apocalípticos ligava-se à convicção de que os atos finais da história excluiriam zonas cinzentas.
- A contrapartida do moralismo expressa-se na ênfase conferida ao valor da paciência e da resistência sob a provação e o sofrimento.
- Presença dessa dimensão em todas as seleções, brilhando com nitidez nas cartas do monge Adso e dos Franciscanos Espirituais.
- Relato comovente de Ângelo de Clareno sobre os quarenta anos de provações sofridos com seus companheiros como lição de paciência.
- A Carta aos Filhos de Carlos II, de Pedro de João Olivi, estrutura-se como uma fuga teológica cuidadosa sobre o tema da resistência.
- Consideração do ato de suportar até o fim como um exercício supremamente ativo de virtude e não como estado passivo.
- A confiança do fiel no fim iminente é sustentada por três vias principais em meio à perseguição.
- A primeira via consiste na segurança básica decorrente do senso de pertencimento à história e da capacidade de situar o presente no plano eterno de Deus.
- A segunda via reside na capacidade de suportar o mal presente pela certeza de que o tempo de sua duração será curto.
- A terceira via define a esperança que preenche o fiel de alegria pela certeza de que a vindicação será definitiva, consumando a história e superando a morte.
- A necessidade de concordâncias fictícias com origens e fins para dotar de sentido a duração da vida humana foi defendida por Frank Kermode em The Sense of an Ending.
- Imaginação do fim refletindo as preocupações irremediavelmente intermediárias dos homens.
- A vinculação da vida individual e coletiva a um início e a um fim atua como um mecanismo para superar o denominado terror da história de Mircea Eliade.
- Força dos sistemas apocalípticos baseada na resposta ao desejo de um conhecimento detalhado e certo sobre o passado, o presente e o devir.
- A capacidade do apocalipse de ser desconfirmado sem ser descreditado fundamenta sua sobrevivência sob disfarces na contemporaneidade.
- Adaptação, ajuste e recalculo garantindo a sobrevivência dos sistemas após repetidas desconfirmações cronológicas.
- A permanência e a premência das ansiedades humanas aliviadas pelo apocalipsismo impedem que falhas temporárias destruam o seu poder de atração.
- A atribuição de um significado particular ao momento presente supera em importância a segurança histórica geral dada pelo apocalipsismo.
- O pensamento do apocalipcista qualifica-se como intensamente histórico segundo as palavras de W. Schmithals.
- Demonstração desse caráter na preocupação com a hora que está soando para a própria geração e não por curiosidade especulativa.
- A relação dessa hora com o fim iminente e com a transformação do mundo confere aos crentes a coragem para suportar os breves males enfrentados.
- A percepção da iminência variou consideravelmente entre os autores da coletânea.
- Utilidade da distinção proposta por George Caird entre o fim além do qual nada ocorre e o tempo do fim no qual muitos eventos se processam.
- A presença dessa distinção nos autores antigos atesta-se no texto de Joaquim de Fiore sobre a figura do dragão de sete cabeças.
- Lactâncio situava o retorno de Cristo até duzentos anos no futuro, mantendo a convicção de que sua época testemunhava o início do tempo do fim.
- O tempo do fim podia ser concebido como curto ou longo, abrangendo tanto a hora da provação quanto o milênio terrestre de vitória posterior.
- O traço distintivo do apocalipcista tradicional residia na convicção de que o presente integrava o tempo final em que a história alcançaria seu propósito.
- Primazia da iminência psicológica sobre a iminência estritamente cronológica na recepção da recompensa.
- A abertura das cortinas e o início do espetáculo simbolizam o senso de urgência desse pensamento.
- A expectativa ardente da vindicação apoiava-se em uma esperança superior a qualquer sofrimento terreno.
- A perspectiva sobre a vida humana dada pelo apocalipse estabelece que a morte física não constitui um desastre definitivo segundo John Collins.
- Existência de uma vida e de valores que transcendem a morte corpórea.
- Objetivo do apocalipse definido como o cultivo de valores transcendentes e a consequente experiência de uma vida transcendental.
- A esperança na transcendência da morte entrelaçou aspectos individuais e coletivos de modo indissociável para os autores apocalípticos.
- Crença na sobrevivência individual sob a forma da ressurreição da carne considerada como a maior conquista dos criadores da espiritualidade apocalíptica.
- A convocação individual para a decisão na hora crítica fundamentava a recompensa, sem que o apocalipcista caísse no solipsismo.
- O remanescente fiel, a comunidade dos justos e a verdadeira Igreja figuravam como objetos da vindicação tanto quanto o crente individual.
- A transformação do homem e de sua sociedade legou uma das contribuições mais preciosas do apocalipsismo ao pensamento ocidental.
- A interpretação da espiritualidade apocalíptica como mera realização de desejos ou projeção de necessidades humanas surge como leitura possível.
- Convicção de Frank Kermode de que o fim deve ser concebido como imanente e não iminente, substituindo a escatologia consistente pela tragédia e pelo absurdo.
- As recuperações teológicas contemporâneas de Pannenberg, Moltmann ou Rahner também rejeitam o retorno a predições ingênuas ou padrões históricos ultrapassados.
- O acordo em torno da superação dos padrões literais ingênuos do passado recebe a anuência do autor da obra.
- A destruição precipitada do apocalipsismo literal corre o risco de impedir a compreensão do significado religioso dessa longa tradição.
- Perda fácil da sabedoria e do sentido dos símbolos apocalípticos pela aplicação rude do método crítico.
- O apelo de Paul Ricoeur por uma segunda ingenuidade alcançada via interpretação crítica dos símbolos apresenta-se como caminho promissor.
- Busca por um equivalente pós-crítico da hierofania pré-crítica para a recuperação contemporânea do sentido do apocalipsismo.
- A expectativa do organizador reside no auxílio que os textos apresentados possam dar para a realização dessa tarefa exegética.
- O uso das Escrituras nos tratados e cartas manifesta considerável liberdade na citação dos textos sagrados.
- Decisão de traduzir diretamente das versões dadas pelos autores e não de traduções modernas devido à importância dessa liberdade para os argumentos.
- A permanência de um fim além do fim serve de transição para os agradecimentos institucionais e intelectuais do autor.
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