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Sentido Literal (1)
Henri de Lubac — História e Espírito
- Tendo sido afastado o preconceito geral que tão frequentemente leva a uma má compreensão do alegorismo de Orígenes, torna-se possível examinar sua doutrina relativa ao sentido das Escrituras, começando pela base: o sentido literal.
- Tudo na história sagrada se passava “em mistério”, e tudo o que foi escrito é mistério.
- A grandeza desses mistérios ultrapassa as forças humanas e sua densidade é esmagadora — “Vede que peso de mistérios nos oprime!”
- A leitura dos Livros santos é comparada a um mar imenso diante do qual um sentimento de temor invade aquele que está prestes a se lançar nele com o pequeno barco de seus fracos recursos.
- Nada nas Escrituras é dito ao acaso nem relatado em vão — os menores detalhes de vocabulário e as menores anomalias de redação são sinais de um novo mistério querido pelo Espírito Santo por razões profundas.
- O texto sagrado deve ser “auscultado” em toda parte com o maior cuidado.
- O caráter misterioso da Bíblia não é afirmado em detrimento de seu caráter histórico — o espírito não pretende destruir a letra nem fazer-lhe injustiça.
- É a realidade da história bíblica que figura as coisas da salvação e lhes serve de fundamento — os fatos e gestos das personagens bíblicas são, em sua própria realidade, plenos de sentido misterioso.
- A luta de Orígenes contra o docetismo projeta-se sobre sua concepção das Escrituras, pois o que ele não admitia a respeito de Cristo tampouco estava disposto a admitir a respeito de sua preparação em Israel.
- Assim como o Logos necessita de um corpo em sua vida terrena, nas Escrituras o sentido histórico e o sentido espiritual relacionam-se como a carne e a divindade do Logos.
- Toda a Escritura é, por assim dizer, “incorporada” — como Aquele que ela anuncia e prepara, o é “non in phantasia, sed in veritate” — não em aparência, mas em verdade.
- Assim como não se deve deter-se em Cristo no homem visível, mas perceber pela fé o Deus nele presente através da carne, também é preciso atravessar a história exterior dos Livros santos para penetrar até o “mistério espiritual” nela oculto.
- É necessário crer, em geral, que as coisas aconteceram como estão relatadas — elas tiveram lugar “epi to reto” — segundo a letra.
- Os judeus erram apenas por se limitarem a esse nível literal — contra eles e seus semelhantes, defende-se simultaneamente a letra e o espírito das Escrituras, sem “maldizer a letra” nem “blasfemar o espírito”.
- O mistério pressupõe o fato real — “manente prius historiae veritate” — permanecendo antes a verdade da história.
- Quando se lê que os assírios levaram os filhos de Israel ao cativeiro, crê-se tanto que o fato ocorreu outrora quanto que ele é figura do cativeiro imposto hoje por certos “assírios espirituais”.
- Certos episódios que poderiam parecer inverossímeis não levam Orígenes a abandonar o sentido literal, pois ele os recebe tais como são narrados, sem ceder às repugnâncias do helenismo.
- Quanto ao fato da criação, Orígenes não hesita em recebê-lo tal como está narrado, argumentando com decisão contra os filósofos que prefeririam interpretá-lo como um mito platônico análogo ao relato do Timeu de Platão.
- Quanto aos milagres, por mais extraordinários que sejam, não os toma como razão para abandonar a “interpretação óbvia” — o escárnio de Celso não o intimida: “Oxalá me aconteça ser chamado de insensato pelos infiéis, eu que acreditei em tais coisas!”
- A homilia dedicada à arca de Noé mostra o cuidado meticuloso com que Orígenes justifica a letra mais exata dos relatos mais espantosos contra as objeções irônicas de um Apeles e de muitos outros.
- A história de Abraão, a mulher de Ló transformada em estátua de sal, as dez pragas do Egito, a passagem do Jordão, a rocha ferida por Moisés, as histórias de Balaão, Gideão e Débora — nenhum desses relatos é colocado em dúvida.
- O milagre do sol detido por Josué é comentado com a observação: “Essas coisas, que se produziram na realidade da história, anunciam a todos os séculos os prodígios do poder divino.”
- Quetura, a esposa que Abraão recebeu quando “cheio de dias”, pode ser para Orígenes a dialética ou outra ciência, sem que isso impeça de indicar na rainha de Cedar sua herdeira longínqua.
- O princípio de Orígenes é o mesmo tanto para episódios quanto para preceitos e máximas — todos contêm profundidades divinas, mas conservam em sua grande maioria a significação literal.
- Os episódios “foram cumpridos sensivelmente” e os preceitos “devem ser ou foram observados segundo a letra”.
- O aspecto sensível, literal e histórico é sempre necessário conhecer — por seu estudo convém começar, pois ele serve normalmente de base à inteligência espiritual.
- Considerações geográficas ou topográficas podem estabelecê-lo — como no caso dos poços dos patriarcas: “Que esses santos homens cavaram poços na terra dos filisteus, como a Gênese nos assegura, é provado pelos poços admiráveis ainda mostrados na cidade de Ascalão, que merecem ser vistos pela singularidade de sua estrutura, diferente de todos os outros.”
- Certas explicações simples “têm sua graça” — a letra da Escritura é frequentemente útil e edificante por si mesma.
- Os preceitos da Lei confirmados pelos do Evangelho exemplificam isso, assim como a história de José: “Não penso que nem mesmo Momo, por assim dizer, pudesse encontrar o que criticar nesse evento, que nos fornece grande quantidade de belas lições, mesmo sem ir até a alegoria.”
- A história de Débora, cuja “prima ipsius litterae facies” — primeira face da própria letra — pode trazer consolação ao sexo frágil antes mesmo de se examinar “quid etiam interioris intelligentiae respiret arcanum” — o que o arcano da inteligência interior exala.
- A homilia sobre o sacrifício de Abraão, que nutriu gerações de exegetas e espirituais, concentra-se no trágico conflito entre o amor paternal e o dever de obediência a Deus — apenas um breve parágrafo esboça ao final a significação de Isaac e do carneiro como figuras do Cordeiro de Deus.
- “Que o texto da história nos edifique primeiro” — somente depois de exposto o sentido histórico se perguntará qual o sentido mais interior nele oculto e qual “alegoria” convém dele extrair.
- Comenta-se “spiritualiter” apenas depois de ter explicado “simpliciter” — guarda-se cautela diante da tendência de negligenciar a letra de certos preceitos para ascender imediatamente à alegoria ou escapar pela tropologia, pois tal espiritualismo não é de boa qualidade.
- A imoralidade de certos atos relatados pelos escritores sagrados não é razão para colocá-los em dúvida, mas motivo a mais para buscar sua significação espiritual.
- “Deus, em sua sabedoria, dispôs todas as coisas de tal modo que a boa vontade do homem lhe sirva para fins bons, e sua má vontade para fins necessários” — assim como tira o bem do mal, Deus tira nossa edificação dos relatos menos edificantes.
- Quanto às “certas faltas cometidas pelos santos Pais” nas Escrituras, o sentido figurado que delas emerge serve à instrução — “purificação e satisfação são procuradas pelos Doutores, mostrando que tais atos foram imagens de coisas futuras, não para que as faltas dos santos lhes sejam imputadas, mas para que se veja que os próprios pecadores concorrem para a herança e a sociedade dos santos.”
- O incesto das filhas de Ló comporta um ensinamento superior que justifica o relato — é possível “de um lado dar-lhe um sentido alegórico e, de outro, encontrar mesmo alguma desculpa” para o que parece mais chocante na história.
- Nem tudo na Bíblia deve ser tomado ao pé da letra — há, embora em pequeno número, certos episódios “puramente espirituais”, e por vezes a Escritura “entrelaça à história detalhes que não ocorreram, outros que eram impossíveis, outros que poderiam ter acontecido, mas que de fato não aconteceram.”
- Assim certos trechos ou traços “não têm sentido corporal” — como a afirmação do Livro de Josué: “E Josué escreveu sobre as pedras o Deuteronômio na presença dos filhos de Israel.”
- Orígenes comenta: “Como pode ele escrever um livro tão grande, permanecendo os filhos de Israel ali até o fim? Ou como as pedras do altar puderam conter o conteúdo de um livro tão grande? Que o digam esses judeus amigos da letra, que ignoram o espírito da Lei… Nosso Senhor Jesus não necessita de muito tempo para escrever o Deuteronômio, isto é, a segunda Lei no coração e no espírito dos crentes… para neles inscrever a Lei do espírito.”
- A interpretação espiritual aparece nesses casos como um recurso para encontrar em certos trechos um sentido do qual de outro modo seriam desprovidos — ela serve também para conciliar dois textos aparentemente contraditórios.
- Orígenes declara que só a ela recorreria em última extremidade, vencido pela razão — contudo, confessa consentir nisso às vezes com alguma rapidez, à semelhança de Clemente e Filon.
- Algumas impossibilidades da letra resultam de tê-la querido demasiado estrita — como aplicar a lei do Levítico “olho por olho, dente por dente” ao assassino de um recém-nascido que ainda não tem dentes, ou como os jebuseus podem habitar com os filhos de Judá em Jerusalém “até ao dia de hoje” segundo o Livro de Josué, dado que “até ao dia de hoje” significa na Bíblia “até o fim dos séculos”.
- Na convicção de que tudo na Bíblia é dado “principalmente em vista do sentido espiritual”, Orígenes está sempre pronto a admitir que a Providência divina tenha semeado relatos e preceitos de detalhes absurdos ou impossíveis — como “pedras de tropeço” — “para excitar os espíritos mais penetrantes e atentos a escrutar as profundezas da Escritura e nela buscar um sentido verdadeiramente digno de Deus.”
- “Se a utilidade da Lei mosaica fosse claramente evidente, ou se o relato fosse sempre límpido e seguido, não acreditaríamos que houvesse algo além do sentido natural… Seguindo sem obstáculos a fácil inclinação do discurso, abandonaríamos com o tempo uma doutrina que não nos pareceria ter nada de divino, ou, presos à letra, não aprenderíamos nada digno de Deus.”
- Orígenes tende a multiplicar as falhas da letra para usá-las como instrumento de polêmica antijudaica — fórmulas como “Gostaria de perguntar aos judeus”, “Velim requirere a Judaeis”, “Velim ego in hoc loco percontari a Judaeis”, “Patroni litterae Judaei velim videre quomodo asserunt” anunciam geralmente suas observações sobre alguma impossibilidade do texto.
- Esse procedimento, reconhecidamente cômodo e fundado numa concepção singular, pode ser visto como uma das “saídas fáceis da escola alegórica”, embora não fosse sentido como tal por seus praticantes.
- Hilário de Poitiers escreveu: “Interpositis enim nonnullis rebus, quae ex natura humani sensus sibi contrariae sunt, rationem quaerere caelestis intelligentiae admonemur” — “Pois, introduzidas certas coisas que, pela natureza do sentido humano, se contradizem, somos advertidos a buscar a razão da inteligência celeste.”
- Um procedimento análogo foi observado no próprio Teodoro de Mopsuéstia.
- Segundo o Pe. Guillet, “esse hábito de tomar pretexto das incoerências ou estranhezas de um texto para nele encontrar um alcance novo remontava às origens do cristianismo” — era um dos argumentos preferidos de Justino em sua polêmica contra os judeus, e fora a argumentação do próprio Jesus ao opor a seus adversários o enigma do salmo 110: “O Senhor disse ao meu Senhor” — conforme Mateus 22,44.
- De fato, Orígenes não abusa muito do princípio que estabeleceu — quando contesta a literalidade histórica de algum detalhe, é frequentemente com o fundamento de que mesmo os que “valde amici sunt litterae” — muito amigos da letra — serão forçados a reconhecê-lo.
- “Na maioria dos casos, pode-se e deve-se salvar a verdade da história… Os episódios realmente históricos são, na Escritura, muito mais numerosos do que aqueles que contêm um sentido puramente espiritual.”
- Um caso particular e de grande importância são os textos concernentes às origens e aos fins últimos — os “summa Scripturarum” — que formam na Revelação como uma categoria à parte, as primeiras e as últimas páginas.
- Está demonstrado, em análise anterior, que é por falta de compreensão que se atribui a Orígenes o tratamento do relato das origens como um alegorista pagão tratava seus mitos.
- Orígenes reagiu contra aqueles que, em sua interpretação dos textos escatológicos, se deixavam enganar pelas palavras e imagens a ponto de forjar “fábulas ineptas e vãs ficções” — como “crer que após a ressurreição se usaria de alimento corporal e que se beberia vinho não desta verdadeira Videira destinada a uma existência eterna, mas de uma videira material.”
- Os extraviados por “seu gosto carnal e sua paixão” “rolam num abismo de tolices e de contrassensos” — “eles erram e ignoram a Escritura”, dizia Orígenes dos que sonhavam com núpcias carnais para o mundo vindouro, numa interpretação digna dos saduceus.
- Orígenes trabalhou assim pela ortodoxia e pelo rigor do ideal moral — sem se mostrar severo com os “pequenos na fé em Cristo” que tomavam no sentido mais grosseiro o retorno anunciado do Filho do Homem nas nuvens do céu, combateu imaginações ilusórias.
- Purificou a ideia da salvação e a esperança do Reino — destruiu o erro milenarista, então ainda poderoso e sustentado por esses “solius litterae discipuli” — discípulos somente da letra — que o tratavam como suspeito.
- Permitiu à Igreja acolher sem temor em seu cânon das Escrituras o livro do Apocalipse — pois o argumento mais forte dos milenaristas era tirado precisamente dessa “Revelação” que interpretavam ao pé da letra, de modo que a maioria de seus adversários só via meio de combatê-los rejeitando-a como apócrifa.
- Papias, a Epístola de Barnabé, Justino, Ireneu e Tertuliano se haviam deixado seduzir pelas descrições simbólicas do livro misterioso — mais tarde, o bispo Nepos extrairia dele seu principal argumento em sua Refutação dos alegoristas.
- Caio, em Roma, atribuía o Apocalipse a Cerinto, e muito tempo depois certas Igrejas do Oriente ainda hesitavam em recebê-lo.
- Orígenes, sem ter de mover combate direto em favor do Apocalipse, teve o mérito de dissipar o sonho milenarista preservando ao mesmo tempo a autenticidade do Livro sagrado — foi assim o instrumento providencial ao qual, mais do que a qualquer outro, deve-se hoje a posse desse tesouro.
- Verifica-se aqui a observação de Newman: o destino da interpretação mística e o da ortodoxia estão ligados.
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