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3 Khora

DERRIDA, Jacques; CAPUTO, John D. Deconstruction in a nutshell: a conversation with Jacques Derrida. New York: Fordham University Press, 1997.

Khora: Levando Platão a sério

1. A citação de abertura registra a declaração de que se está no limiar da leitura de Platão e Aristóteles, que se os ama e que se sente que é preciso começar de novo e de novo e de novo, sendo essa uma tarefa que está à frente, diante de quem fala.

2. A segunda citação adverte que se recebeu mais do que se pensa saber da tradição, mas que a cena do dom também obriga a uma espécie de falta filial de piedade, ao mesmo tempo séria e não tão séria, em relação ao pensamento ao qual se tem a maior dívida.

UMA FRAUDE

1. Em 18 de maio de 1996 o New York Times noticiou em sua primeira página uma história de uma farsa aplicada à Social Text, o principal veículo do movimento dos estudos culturais, sob a manchete de que a gravidade pós-moderna fora desconstruída astutamente, e o jornal relatava uma história que acabara de aparecer na Lingua Franca e subsequentemente criara bastante controvérsia, na qual um físico chamado Alan Sokal revelava que submetera uma sátira intitulada Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformadora da Gravidade Quântica, destinada a fazer parecer ridículo o que os sociólogos pós-modernos da ciência dizem sobre a gravidade, que é o que o Times queria dizer com desconstruída.

2. Os editores da Social Text levaram a sátira bastante a sério e acabaram de publicá-la, o que levou ao gotech'ya de Sokal, e assumindo uma aparência de perfeita gravidade Sokal atacou o que tomou ser o relativismo do movimento dos estudos culturais, particularmente no que diz respeito à ciência dura, sendo essa a questão gravemente séria de que se trata.

3. Sokal, para quem gravidade não é uma sugestão mas a lei, disse que defendia a verdade das citações mais tolas sobre matemática e física dos mais proeminentes acadêmicos, que inventara um argumento elogiando-as e ligando-as umas às outras, e que tudo isso foi muito fácil de levar a cabo porque seu argumento não estava obrigado a respeitar quaisquer padrões de evidência ou lógica.

4. Sokal sente-se obrigado a sair em defesa da ciência contra seus detratores, que é obviamente o que ele pensa que desconstrução significa, e sua alegação atrevida era que numa perspectiva pós-moderna a variedade espaço-tempo deixa de existir como realidade física objetiva, a geometria se torna relacional e contextual, e as categorias conceituais fundacionais da ciência anterior, entre elas a própria existência, tornam-se problematizadas e relativizadas.

5. Defendendo-se ao repórter do Times, Stanley Aronowitz, cofundador do periódico e professor da City University of New York, disse que Sokal é mal lido e meio educado e que entendeu tudo errado, o que não parece grande defesa, pois deixa o leitor a se perguntar que padrões de evidência ou lógica o editor Aronowitz usa quando aceita artigos para publicação em seu periódico.

6. Stanley Fish, entre outras coisas diretor executivo da Duke University Press, que publica a Social Text, ficou indignado com o fato de que alguém se atrevesse a perturbar, transtornar, transgredir, mimetizar, satirizar ou subverter os pós-modernos, que passam o tempo, é claro, fazendo exatamente isso a todos os outros, dizendo que não estava divertido, que era uma piada ruim, nada engraçada, e então, como um envelhecido estudioso de Shakespeare, invocou os padrões mais clássicos e retos da propriedade acadêmica contra Sokal.

7. Questionando a própria ética de Alan Sokal, Fish levou tudo isso muito a sério e argumentou indignadamente que a sociologia da ciência está no sério negócio de delimitar a ciência, não de detratá-la, de mostrar até que ponto as alegações científicas estão embutidas em sistemas sociais, políticos e até sexuais possuídos de sérias implicações políticas.

8. Numa carta enviada pela Internet que retirara da publicação porque o Times não a publicaria na íntegra, Sokal diz que sabe de tudo isso e que está interessado apenas em expor os excessos da sociologia da ciência.

9. A sátira de Sokal, comenta o repórter do Times, é uma mixórdia impenetrável reforçada com longas notas de rodapé e citações do trabalho de Aronowitz e dos quejandos de Jacques Derrida, e ai de Derrida por viver para ouvir seu nome usado como sinal de disparate e resistência à gravidade, ai de que algo tão sério como a desconstrução viesse a servir a tal tolice, pois restaurar a gravidade da desconstrução, mostrar que a desconstrução é coisa séria, limpar o nome de um homem muito responsável, ver o lado sério do que Derrida e outros chamam de transgressão, que faz cócegas no osso engraçado de Sokal, isso é coisa séria.

10. A última coisa que Derrida está interessado em fazer é minar as ciências naturais ou o conhecimento científico em geral, e uma desconstrução da ciência natural, se fosse empreendida a sério e com suficiente senso de gravidade, seria boa notícia, pois seu efeito seria manter as leis da ciência num modo autorrevisor e autoquestionador de abertura ao outro, que aqui significaria a anomalia científica, a coisa que desafia ou transgride a lei.

11. Uma abordagem desconstrutiva da ciência manteria a comunidade científica aberta aos arrivistas, às novas ideias, aos jovens estudantes de pós-graduação audaciosos que surgem com hipóteses inesperadas que a princípio parecem um pouco engraçadas e depois um pouco brilhantes.

12. Uma abordagem desconstrutiva da ciência natural sustentaria que as leis da ciência são sempre desconstruíveis, revisáveis, justamente em virtude de uma ciência por vir, presentemente imprevisível, e seria boa notícia e ciência dura, pois a suspeita sorrateira de que algo pode estar errado com o que atualmente se crê, mantendo um olho atento para que os paradigmas correntes não sejam tomados dogmaticamente, que outra coisa, algo outro, ainda por vir, está sendo perdido, esse estado de espírito profundamente desconstruturado vai ao coração da ciência dura, se é que ela tem coração.

13. Assim, se a desconstrução teria coisas interessantes e construtivas a dizer sobre a ciência, muito no espírito dos mais responsáveis e sérios filósofos da ciência kuhnianos e pós-kuhnianos, filósofos anglo-americanos todos, aliás, se a desconstrução é a própria gravidade, e se, mais geralmente, uma desconstrução da ciência ou da teologia, da literatura ou do direito, do que for, é sempre uma tentativa de abri-la, não de detratá-la ou nocauteá-la, cabe perguntar como o bom nome de Derrida foi arrastado para essa farsa e como, numa nutshell, Derrida ou desconstrução acabam por significar o próprio diabo.

14. Na mesa-redonda o caso em questão não é a física mas a filosofia grega, mas o estudo sério da filosofia grega, de Platão e Aristóteles por exemplo, servirá muito bem para demarcar as visões de Derrida sobre fazer trabalho sério, sobre padrões e critérios em qualquer disciplina acadêmica, desde a investigação das leis da gravidade até o estudo do Pecado Original, e portanto para dissociá-lo da tolice, da estupidez, do disparate estupefaciente que ele pensa que tudo vale.

A DESCONSTRUÇÃO É UM ASSUNTO SÉRIO

1. Fazer desconstrução, se a desconstrução é algo a fazer, não é uma questão do mais recente, atualizado, adiantado a si mesmo, vanguardista e pós-moderno um-para-cima, pois a desconstrução tem a ver com o mais velho dos velhos bem como com o que vem.

2. Se há algo na desconstrução, então o que ela descreve, a saber, uma certa tendência autodesconstruutiva embutida nas próprias coisas, é tão velho quanto as colinas, tão antigo quanto Platão, tão medieval quanto Tomás de Aquino, tão moderno e iluminado quanto Descartes, Kant e Hegel, e Newton.

3. Na mesa-redonda Derrida reafirma seu amor pela grande tradição da filosofia grega e de Platão e Aristóteles em particular, dizendo-nos que no que diz respeito aos gregos é um perpétuo principiante, que eles estão sempre à sua frente, que lê-los é uma tarefa infinita que está sempre diante dele.

4. Derrida é perfeitamente sério, e ao contrário das representações populares da desconstrução como uma espécie de inimiga da tradição, algo que ignora ou distorce o grande cânone, Derrida trata grandes machos brancos europeus mortos como Platão com escrupuloso e amoroso cuidado, e assim para fazer desconstrução, e fazê-la devemos, para que não seja feita a nós, é preciso levar os gregos a sério, e especialmente Platão, cuja discussão da khora no Timeu 48-52 atrai o interesse particular de Derrida.

5. A desconstrução, afinal, é coisa séria, é a própria gravidade, se ela tem um si mesma.

6. No presente capítulo, para se ter alguma ideia da seriedade da abordagem de Derrida à tradição, começa-se por expor o que ele chamou desde cedo de seu método exorbitante, depois se toma o exemplo que ele propõe de uma análise desconstrutiva, seu tratamento da khora de Platão, e finalmente se oferece uma opinião sobre por que o interesse de Derrida é atraído pela khora.

7. Mostrar-se-á como o tratamento platônico da khora serve a Derrida como um sobrenome da differance, isto é, uma espécie de alegoria da differance, pois a khora expõe uma certa impureza e intratalibilidade no próprio núcleo dos conceitos filosóficos, um certo recuo e recessão do alcance da filosofia, ali mesmo em Platão, que é o próprio paradigma do que se entende por filosofia, a boca da filosofia, levando-nos assim aos próprios limites da filosofia e ao coração da desconstrução, se ela tem um coração.

8. Platão e Aristóteles, diz Derrida, estão sempre à sua frente, e lê-los é sempre uma questão de começar de novo, sempre uma tarefa infinita, e nós, sempre um termo imensamente problemático para Derrida, somos todos filhos dos gregos, ou pelo menos os gregos formam uma parte considerável de nossa avoenga, de ao menos alguns de nós, já que os de nós que vêm da Ásia ou foram arrastados involuntariamente da África subsaariana têm genealogias diferentes e geralmente não se sentem tão gregos.

9. Embora a admiração de Derrida por Heidegger não deva ser subestimada, ele não quer parte alguma do greco e eurocentrismo de Heidegger, que anda de mãos dadas com a mitologização e teologização heideggerianas da pátria do Ser, da língua materna do Ser, e dos alemães como herdeiros dos helenos, o mito mestre e mito dos mestres que guiou muito do pensamento e da abominável política de Heidegger, sendo isso tanto extremamente engraçado, diz Derrida, quanto extremamente perigoso.

10. Ainda assim, apesar dos excessos de Heidegger, se nós significa tanto o mundo nato-ense de euro-americanos quanto o alcance colonizador que esse mundo fez no resto do mundo, então estamos sempre obrigados a estudar os gregos se quisermos entender quem somos e o que podemos nos tornar e o que se passa ao redor do globo.

11. Mas essa leitura dos gregos não deve ser conservadora ou reprodutiva, não porque Derrida rejeite a própria ideia de tal leitura, mas porque tal leitura é sempre uma primeira leitura, preparatória, preliminar, fundante, contextualizante, e essa primeira leitura deve ser seguida por uma leitura mais produtiva, de grão fino, distintamente desconstrutiva, que explora as tensões, os fios soltos, as pequenas aberturas no texto que a leitura clássica tende a fechar ou a adiar como problema para outro dia, o que é apenas um modo de esquecê-las.

12. Mas isso significa que a própria ideia de uma leitura desconstrutiva pressupõe essa leitura mais reprodutiva e clássica que permanece em todas as autoestradas expressas e não persegue as pequenas estradas secundárias nem se aventura em áreas não sinalizadas, pois a leitura clássica segue o que se poderia chamar de tendências dominantes do texto, as autoestradas lisas com saídas numeradas.

13. Só depois dessa leitura, ou através dela, ou melhor de tudo junto com ela, uma leitura desconstrutiva se instala para apontar os becos sem saída e as aporias e para tornar as coisas mais difíceis, e como disse Heidegger a autenticidade é uma modificação da inautenticidade, e ser diferente é sempre uma modificação que dá uma nova dobra e torção ao mesmo, mas sempre, por favor lembrem, tudo isso é para abrir as coisas, para encontrar um modo de ler de outro modo, em nome da vinda do outro.

14. A relação entre a primeira e a segunda leituras, entre as leituras dominante e desconstrutiva, pode ser vista como espelhando a relação entre as instituições mainstream e o College, e a ideia não é descartar a disciplina clássica mas perturbá-la explorando o que sistematicamente cai através de sua grade e, assim perturbando-a, abri-la.

15. Há bastante confusão sobre isso, pensa-se, nas representações populares de Derrida, e Alan Sokal, o New York Times e o New York Review of Books certamente se confundiram sobre isso, e tais críticos tendem a ver a desconstrução e o que quer que se entenda por transgressão como uma hermenêutica do tudo vale entregue a leituras arbitrárias e, apesar de sua crítica da subjetividade, altamente subjetivistas que não são de muita ajuda para estudantes sérios de filosofia grega ou da lei da gravidade ou de qualquer outra coisa, não muito distantes da caça às bruxas.

16. Assim a distinção entre primeira e segunda leituras, entre leituras clássicas e desconstrutivas, tende a ser popularmente construída como a distinção entre gravidade, literalmente, e leviandade, entre leituras sérias, eruditas e responsáveis de um lado e leituras tolas, não eruditas, irresponsáveis e até perigosas de outro.

17. Mas para Derrida uma leitura desconstrutiva é extremamente próxima, de grão fino, meticulosa, erudita, séria e acima de tudo responsável, tanto no sentido de ser capaz de dar conta de si mesma em termos eruditos quanto no sentido de responder a algo no texto que tende a sair de vista.

18. De fato Derrida tem pouca paciência com o disparate que frequentemente é importado sob o rótulo do jogo dos significantes, dizendo que as inferências às quais esses jogos de associação e passatempos de sociedade há muito vêm dando origem são fáceis, tediosas e ingenuamente jubilatórias.

UM MÉTODO EXORBITANTE

1. Por causa da confusão sobre essa questão e da importância de se acertar Derrida nesse ponto, segue-se uma passagem frequentemente negligenciada em Da Gramatologia, ainda que apareça na famosa discussão da desconstrução como um método exorbitante, sendo a exorbitância é claro pressupondo uma órbita a deslocar.

2. Derrida está prestes a escandalizar os Bons e os Justos, os Cavaleiros da Boa Consciência, ao dizer que não há nada fora do texto, o que ele chama de proposição axial desse ensaio, sendo essa a famosa e escandalosa parte e uma das declarações mais completamente deturpadas da filosofia contemporânea.

3. Uma leitura desconstrutiva, diz Derrida, sempre se instala na distância entre o que o autor conscientemente intenta ou quer dizer, isto é, o que ela comanda em seu texto, e o que ela não comanda, o que se passa no texto, por assim dizer, pelas costas dela e que surpreende e ultrapassa a própria autora.

4. Essa distância, ou lacuna, é algo que a leitura desconstrutiva deve produzir, e claramente tal estrutura ou relação não pode ser produzida por um comentário respeitoso, reprodutivo, duplicador e autoapagante que segue as escolhas conscientes que a autora faz, já que isso, na medida em que é possível, captará apenas uma ponta da relação, a intencionalidade consciente.

5. Mas nesse ponto Derrida diz, e essa é a parte negligenciada por seus críticos e muito frequentemente por seus admiradores, que esse momento de comentário duplicador deveria sem dúvida ter seu lugar numa leitura crítica, e que reconhecer e respeitar todas as suas exigências clássicas não é fácil e requer todos os instrumentos da crítica tradicional.

6. Para ler bem Platão e Aristóteles é preciso aprender grego, aprender o máximo possível sobre seus predecessores, contemporâneos e sucessores, sobre seus pressupostos religiosos, sociais, políticos e históricos, entender a complexa história das interpretações subsequentes de suas obras etc., o que não é fácil, sendo de fato uma tarefa infinita, e a desconstrução não é uma licença para contorná-la, pois de outro modo, se essa leitura não acontece, então tudo vale, e os leitores podem dizer de um texto o que quer que lhes venha à cabeça.

7. Sem esse reconhecimento e esse respeito a produção crítica correria o risco de se desenvolver em qualquer direção e de se autorizar a dizer quase qualquer coisa.

8. No entanto esse comentário respeitoso é necessário mas não suficiente, pois esse guarda-corpo indispensável sempre apenas protegeu, nunca abriu uma leitura.

9. Não se pode estabelecer a relação entre o que o autor comanda e não comanda se não se obtiver primeiro um comando do que o autor diz ou, melhor, do que se diz no texto, e tal exigência clássica, diz Derrida, fornece guarda-corpos, parâmetros, horizontes dentro dos quais a interpretação dá seus primeiros passos.

10. Ora, se tais guarda-corpos forem impostos de modo absoluto eles moerão a tradição até pará-la, mumificá-la, como diria Nietzsche, de modo que a tradição de ler Platão e Aristóteles se tornará uma questão de transmitir resultados prontos, passar adiante fórmulas acabadas para repetição e recitação mecânicas, e então a crítica tradicional não protegerá de modo algum, a menos que se considere o embalsamamento uma forma de proteção.

11. Assim o único modo de ser realmente leal a uma tradição, isto é, de mantê-la viva, é não ser demasiado leal, demasiado reprodutivo, e o único modo de conservar uma tradição é não ser um conservador.

12. É por isso que a possibilidade de ler de outro modo deve ser mantida viva, o que significa sempre passar pela disciplina clássica e nunca tê-la abandonado ou descartado, para explorar o que ela omite, esquece, exclui, expulsa, marginaliza, descarta, ignora, despreza, menospreza, toma levianamente, afasta, não leva suficientemente a sério.

13. Sobre todos esses elementos omitidos e deslegitimados a leitura desconstrutiva é escrupulosa, gravemente empenhada, mortalmente séria, e um desconstrutor é como um inspetor gravemente preocupado com uma pequena trinca que observa na fuselagem de um avião, dadas as leis da gravidade, enquanto todos os outros na equipe de inspeção estão ansiosos para parar para o almoço, revertendo assim o estereótipo popular de que a leitura desconstrutiva é tola e desleixada.

14. A leitura desconstrutiva é transgressiva da proteção que a leitura tradicional oferece, e em que sentido isso pode ser respondido negativamente, pois não significa dizer o que quer que venha à cabeça sobre o texto, por mais absurdo e ridículo que seja, embora seja evidentemente o que Amy Gutmann, Alan Sokal, Gertrude Himmelfarb, William Bennett e o New York Times pensam que a desconstrução é, razão pela qual Gutmann pensa que ela dá ajuda e conforto à poligamia mórmon enquanto Steven Weinberg se preocupa com a caça às bruxas.

15. Nem essa transgressão consiste num ato de transcendência absoluta pelo qual se ergue a si mesmo para fora das próprias botas textuais ou se espia por trás do texto até algum tipo de fato nu, pré-linguístico, hors-textual, aistórico e não interpretado chamado a coisa em si, ou o Ser Real, ou o significado transcendental, ou o que quer que ponha fogo ao coração.

16. Todos nós estamos sempre e já, segundo Derrida, embutidos em várias redes, sociais, históricas, linguísticas, políticas, sexuais, e a lista continua hoje a incluir redes eletrônicas e teias mundiais, vários horizontes ou pressupostos, que é o que Derrida entende por texto geral ou archi-texto ou textualidade ou, aqui, simplesmente texto.

17. E é nesse contexto que ele formula o memorável texto de que não há nada fora do texto, pois na visão de Derrida se alguma vez tentarmos deixar de lado os textos enquadradores de Platão e Aristóteles e olhar diretamente para as coisas mesmas de que falavam, fá-lo-emos apenas através de outros quadros, outros horizontes, outros pressupostos socio-historico-linguistico-políticos, outras relações ou redes diferenciais, que na linguagem de Derrida são descritas como o jogo diferencial do traço ou da écriture.

18. Derrida não está tentando enterrar a ideia de objetividade mas, um pouco como Kant, forçar a formular uma versão mais sensata dela do que a de algum Ding-an-sich aistórico.

19. Desse ponto textual a literatura é um exemplo exemplar, pois realmente não há uma Jane Eyre fora do texto de Jane Eyre a quem se possa consultar, digamos, para descobrir se ela realmente ouviu o Sr. Rochester chamar seu nome, Jane, do outro lado dos charnecas, e tendo publicado seu livro Charlotte Brontë perdeu todo direito autoritativo de resolver essas questões por nós.

20. Mas o que a literatura exibe puramente, exemplarmente, por assim dizer, é verdadeiro de modos e graus variados de todo outro discurso, pois ninguém jamais obtém acesso privilegiado ao Segredo que fica sorrindo por trás de toda linguagem e interpretação esperando que batamos, e todos estamos no mesmo barco textual juntos, forçados a fazer o melhor que podemos com os signos e traços que conseguimos juntar, trabalhando a partir de um site da teia mundial ou de outro.

21. Não é que os textos e as linguagens não tenham referentes ou objetividade, mas que o referente e a objetividade não são o que se fazem passar por ser, um puro significado transcendental, e Derrida não está tentando destruir textos ou a capacidade de ler textos ou transformar tudo, os grandes gregos, Platão e Aristóteles, a física matemática e a lei da gravidade incluídos, em ficção, ou negar a distinção entre realidade e ficção, mas sim perturbar a tranquila segurança que salta por cima do texto em direção ao seu conteúdo presumido, na direção do puro significado.

22. Il n'y a pas de hors-texte significa que não há referência sem diferença, isto é, sem recurso aos sistemas diferenciais, sejam literários ou matemáticos, que temos à nossa disposição.

23. Então, o que Derrida entende por transgressão, pois uma transgressão requer algo a transgredir, uma fronteira que proíbe a passagem, um limite que proíbe a trespassagem, uma maçã proibida a convidar a mordida.

24. É preciso, portanto, aprender a ler Platão e Aristóteles, estudar duro e passar nos exames nos cursos legitimados de Grego Intermediário e História da Filosofia Antiga, submeter-se às mais clássicas exigências de rigor e competência profissionais, passar pelo ascetismo da mais tradicional disciplina, legitimar-se segundo as normas mais clássicas, em suma, aceitar o que quer que os mestres da legitimação possam distribuir.

25. Mas isso não deve se tornar uma desculpa para o conservadorismo, para um tradicionalismo conservador e reprodutivo que não produz nada, ou permitir uma abertura para o outro, para a invenção do outro, pois a invenção do outro requer primeiro as convenções do mesmo em referência às quais se parte para encontrar algo que contravém e é contracovencional, algo transgressivo do horizonte de legitimação.

26. A transgressão é uma contravenção ou invenção controlada, requerendo a disciplina de um quadro ou horizonte já estabelecido a transgredir, razão pela qual é descrita como um duplo gesto, e a transgressão é assim uma passagem ao limite, o cruzamento de uma fronteira bem traçada que todos compartilhamos, dando a algo reto uma nova dobra ou inclinação ou torção.

27. Pode-se imaginar que Derrida tem em mente um estudante de doutorado impertinente em física dando ao paradigma padrão, sem mencionar os catedráticos, um certo trabalho, o que é bem diferente de crítica desinformada.

28. A ideia de Derrida não é deixar a primeira leitura se tornar a última palavra e não quebrar a tensão entre as leituras dominantes e clássicas e as leituras transgressivas, entre os paradigmas estabelecidos muito reverenciados e as anomalias que circulam dentro e eventualmente abrem o sistema.

29. O conservadorismo quebra a tensão de um modo, tomando posição dentro dos horizontes estabelecidos e dos paradigmas presentes, abatendo dos céus tudo o que é transgressivo, enquanto a tolice descrita por Alan Sokal ou Amy Gutmann, e por Jacques Derrida, a quebra do modo oposto, por não passar pela disciplina clássica e assim remover quaisquer fronteiras a trespassar.

30. Sem um exemplo tudo isso poderia soar como muita fumaça e espelhos, um pouco de exibicionismo intelectual, e o exemplo de Derrida na mesa-redonda é Platão, pois mesmo e especialmente num filósofo tão canônico como Platão, que em certo sentido monta a cena e define os termos do cânone, que é o cânone para o cânone, mesmo ali as possibilidades de ruptura estão sempre à espera de serem efetuadas e os motivos mais radicalmente desconstrutivos estão em ação.

31. Um texto metafísico importante como o de Platão nunca é homogêneo, nunca auto-idêntico, nunca totalmente governado por pressupostos metafísicos, e motivos radicais podem sempre ser detectados e liberados, podendo sempre se mostrar, como se tentou fazer em relação à khora do Timeu, que os motivos mais radicalmente desconstrutivos estão em ação no que se chama de texto platônico, cartesiano, kantiano.

32. Derrida usa o mesmo exemplo da khora na mesa-redonda, de modo que sua análise da khora de Platão recompensará o estudo, para ilustrar como fazer leituras desconstrutivas do grande cânone, como elas funcionam, pois Platão, ver-se-á, não é apenas outro, nem mesmo o primeiro, exemplo do que se chama filosofia e do cânone filosófico, e Platão é um começo que nunca podemos ultrapassar ou deixar para trás, somos sempre principiantes começando com Platão.

KHORA

1. No ensaio intitulado Khora Derrida traça uma distinção entre a filosofia de Platão e o texto, uma distinção que, ver-se-á, é paralela à distinção entre leituras dominante-reprodutivas e transgressivo-produtivas de Platão.

2. A filosofia de Platão, diz Derrida, é uma abstração e uma simplificação, enquanto o texto do qual ela foi excisada é complexo e heterogêneo, um múltiplo de inúmeros fios e camadas, e o texto, diz ele, produz numerosos efeitos, semânticos e sintáticos, constatativos e performativos, estilísticos e retóricos etc., dos quais apenas um é seu conteúdo filosófico.

3. O platonismo é um artifício, mas não arbitrário, construído cortando e colando, aparando o texto de Platão cuidadosamente em torno das bordas, penteando todos os nós e enigmas, as involuções e convoluções, criando o efeito seguro, higienizado e destilado chamado filosofia de Platão.

4. Isso será chamado de platonismo ou a filosofia de Platão, que não é nem arbitrário nem ilegítimo, já que uma certa força de abstração tética em ação no texto heterogêneo de Platão pode recomendar que se faça isso, e o platonismo é assim certamente um dos efeitos do texto assinado por Platão, por muito tempo e por razões necessárias o efeito dominante, mas esse efeito é sempre voltado de volta contra o texto.

5. A filosofia de Platão, que é um conjunto de teses, de filosofemas, de alegações filosóficas temáticas, que corresponde então à leitura dominante e reprodutiva, pode ser voltada contra o texto de Platão, que é um conjunto de eventos textuais, esse conjunto sem limite que aqui se chama o texto, no qual estão embutidas quaisquer outras tendências transgressivas.

6. A filosofia pode então ser feita para monitorar ou policiar o texto, dominando, segundo um modo que é precisamente todo o da filosofia, outros motivos de pensamento que também estão em ação no texto, e um efeito homogêneo e dominante, tético e filosófico do texto é feito para se dobrar de volta sobre o texto como um todo, para governá-lo rigorosamente, para vigiar sua heterogeneidade inexaurível em busca de desvios e transgressões.

7. Privilegiar a filosofia de Platão é o que Derrida entende por logocentrismo, fazer da lógica do argumento, das alegações demonstráveis como verdadeiras ou falsas, o centro, enquanto tudo o mais é enviado à periferia como mera retórica ou ornamentação, deixando a lógica conduzir a letra.

8. O resultado dessa hegemonia logocêntrica da filosofia, dessa concentração de teses, é que o texto é neutralizado, entorpecido, inibido, embora essas forças heterogêneas continuem a se agitar em sua forma inibida, e o platonismo não é apenas o primeiro exemplo no Ocidente da construção de tal filosofia mas também o paradigma que comanda toda essa história, já que a filosofia será sempre de um modo ou de outro platônica.

9. Daí a necessidade de continuar a tentar pensar o que se passa em Platão, com Platão, o que ali se mostra e o que se esconde, para ali ganhar ou ali perder.

10. A desconstrução consistirá numa leitura de grão fino do texto, da literalidade e textualidade do texto, lentamente, escrupulosamente, a sério, liberando as forças ainda agitadas que a filosofia e o logocentrismo se esforçam por conter.

11. Ao tomar a khora, Derrida volta-se previsivelmente para um ponto imprevisível, escuro e remoto na vasta e reluzente arquitetura do platonismo, pois quando se pensa em Platão pensa-se nos dois mundos ou regiões alegorizados na caverna, o mundo superior dos paradigmas inteligíveis, a esfera do ser invisível e imutável sob o sol do Bem que brilha sobre tudo, em oposição às semelhanças sensíveis das formas no mundo cambiante e visível do devir, ao qual corresponde a distinção entre as faculdades do logos seguro e da doxa meramente provável.

12. Diante de uma distinção ou oposição limpa desse tipo, e essa distinção inaugura a filosofia, escavando o vasto espaço da metafísica, Derrida não buscará, à maneira de Hegel, alguma reconciliação dialética edificante dos dois num terceiro termo superior, um universal concreto que contenha a verdade dos dois primeiros, e em vez disso olhará em volta, no texto mesmo, por algum terceiro termo que a distinção omite, alguma não verdade ou apenas remanescente de verdade que cai fora da famosa distinção, que a verdade de cada um separadamente ou de ambos juntos falha em captar, que não é nem um nem outro dos dois.

13. No Timeu o terceiro termo faltante, uma terceira natureza ou tipo, a khora, é fornecido pelo próprio Platão, e a khora é o receptáculo espacial imenso e indeterminado no qual as semelhanças sensíveis dos paradigmas eternos são engendradas, no qual são inscritas pelo Demiurgo, proporcionando assim um lar para todas as coisas.

14. A khora não é uma forma inteligível nem mais uma coisa sensível, mas aquilo em que as coisas sensíveis são inscritas, uma tabula rasa sobre a qual o Demiurgo escreve, e esse receptáculo é como as formas na medida em que tem uma espécie de eternidade, pois não nasce nem morre, está sempre já ali e portanto além do vir-a-ser e perecer temporal, mas não tem a eternidade dos paradigmas inteligíveis mas uma certa atemporalidade acrônica.

15. Porque não pertence nem ao mundo inteligível nem ao mundo sensível, Platão diz que ela é dificilmente real, e além disso, embora não possa ser percebida pelos sentidos mas apenas pela mente, ainda assim não é um objeto inteligível da mente como as formas, e portanto Platão diz que não é um filho legítimo da razão mas é apreendida por um logos espúrio ou corrompido, um híbrido ou bastardo do raciocínio.

16. A khora não é nem ser inteligível nem devir sensível, mas um pouco como ambos, objeto de nem um verdadeiro logos nem um bom mythos, e assim o que a khora é é difícil de dizer, e é justamente esse terceiro termo aporético, enigmático e que embaraça a língua que atrai a atenção de Derrida.

17. Pois aqui ele se depara com algo que tende a derivar para a borda da tela da filosofia, além ou abaixo do alcance da filosofia, situado baixo demais para o radar conceitual da filosofia captar, escapando assim à ordem das categorias que Platão instalou.

18. Talvez, diz Derrida, essa estrutura enigmática, que não se encaixa em nenhum gênero, seja neutra e indeterminada demais para ter qualquer determinação genérica, ou para ter qualquer coisa a ver com geração, de modo que talvez a khora sinalize para um gênero além de gênero, talvez além das oposições categoriais que em primeiro lugar permitem que ela seja abordada ou dita, como o ser puro ou o puro nada, ambos e nenhum.

19. Essa terceira coisa, introduzida não por algum desconstrutor de olhos arregalados e cabelos desgrenhados, com as calças rasgadas e as pupilas dilatadas, mas pelo olho frio do sóbrio e velho Platão de terno e gravata, mencionada em todos os comentários canônicos, é justamente o tipo de coisa, ou não-coisa, a atrair o interesse do método exorbitante de Derrida.

20. Esse método, vê-se agora, consiste em seguir de perto, a sério, minuciosamente o texto até se ver que a interpretação ortodoxa, recebida e dominante foi produzida por um aceno de mão que varre para o lado os desvios e momentos transgressivos, de modo que cabe perguntar quem está sendo sério e quem está sendo tolo.

21. A palavra khora é o substantivo grego comum para uma área ou lugar concreto, e um khorion por exemplo é um distrito ou uma propriedade, e khorismos é uma separação no sentido de uma lacuna ou espaço entre, e khora é traduzida para o latim como locus e para o francês como lieu.

22. Para Derrida, que escolhe deixar a palavra não traduzida, embora jogue com lieu ao longo da peça, a khora pode ser entendida como um grande abismo ou vazio que é preenchido por coisas sensíveis, e ora, a discussão da khora, aponta Derrida, está localizada no meio, no meio-lugar, do texto do Timeu.

23. Na medida em que o Timeu pretende pesquisar o kosmos inteiro, como uma enciclopédia cosmocontológica, essa discussão ocorre como um grande abismo ou precipício no meio do livro, o que é um traço textual do Timeu, o tipo de coisa que os filósofos logocêntricos varrem para o lado por sua aparente irrelevância para o argumento.

24. Ora, para Derrida a ordem de composição do Timeu, a quase-lei de sua textualidade, que governa todas as substituições e permutações que se dão no texto, é fixada por uma elaborada mise en abime, que é um jogo vertiginoso de reflexos, como quando uma imagem é infinitamente refletida num espelho segurado contra outro espelho.

25. Por exemplo, a desconstrução satírica do princípio da gravidade pelo físico Alan Sokal foi uma mise en abime que zombou da gravidade do pós-modernismo, sugerindo que os pés do pensamento pós-moderno, não chegando bem ao chão, carecem de tração.

26. Assim Derrida se propõe a mostrar que a encenação da discussão da khora no texto do Timeu é um jogo especular de imagens da khora, e daí o tropo retórico da mise en abime, deixar a mesma noção ou imagem ser refletida através de várias estruturas dentro da obra, como uma peça dentro de uma peça, funcionar no texto do Timeu para encenar ou performar o significado da khora.

27. Pois a khora é um abismo, um vazio de espaço vazio, e é também um jogo infinito de reflexos no qual os paradigmas produzem suas imagens, simplesmente refletindo coisas sensíveis como um espelho que não é alterado pelas imagens que reflete, e a discussão no Timeu do abismo sem fundo da khora é encenada no texto por uma reflexão sem limite, sem fundo ou chão, de imagens da khora, por um jogo de reflexos que induz em nós, leitores de Platão, um senso de tontura e vertigem como diante de um abismo.

28. Daí a leitura escrupulosamente próxima de Derrida do texto, aqui voltada ao prefácio de abertura do Timeu, consistir em exibir as várias mises en abime a serem encontradas no texto, e isso de modo a nos conduzir ao abismo indeterminado em direção ao qual as próprias determinações categoriais de Platão avançam.

29. Sócrates abre o Timeu fazendo uma referência de volta, refletindo de volta, à República, dizendo que o tema principal do discurso de ontem era o Estado, e a politeia, aponta Derrida, é estruturada em torno de uma certa política dos sítios ou lugares na qual cada homem, mulher e criança é designado ao seu lugar próprio, e a justiça é uma certa distribuição justa dos lugares, dos governantes, dos militares e dos artesãos, cada um em seu lugar próprio.

30. Essa distribuição política anda de mãos dadas com a distribuição dos entes e das faculdades cognitivas ao longo de uma linha dividida, designando a cada um sua medida de verdade e realidade segundo o lugar que cada um toma na linha, formando assim uma espécie de onto-teo-lógica do lugar, mas cabe perguntar onde, então, está a khora na linha, que lugar é ocupado pelo lugar mesmo, se ele tem um si mesmo, e onde localizar na ou sobre a linha dividida aquilo que não é nem sensível nem suprassensível, embora seja de certo modo ambos.

31. Por que faculdade é apreendida, em que lugar da linha se encontra a khora, ou é a linha que está na khora, e que lugar ocupa o próprio filósofo, cujo ofício é ordenar designando lugares, quando ele designa esses lugares.

32. Sócrates é uma figura de khora no diálogo, porque opera a partir de uma espécie de não-lugar, como um homem que não tem lugar próprio, pois ele não é um poeta, essa raça ou gênero de imitadores, nem um dos sofistas, aqueles que vagam de lugar em lugar cheios de palavras vazias, nenhum dos quais pode falar bem do Estado e estender a conversa de ontem.

33. Em referência aos que podem falar bem, o gênero dos filósofos e líderes da polis, ele diz a Timeu, Crítias e Hermócrates que vocês, as pessoas de sua classe, vocês que têm um lugar, um sítio assentado na cidade, a ágora, de onde falar a verdade da politeia, e o próprio Sócrates finge não pertencer a essa classe, não ter lugar, ser no máximo como eles, uma imitação deles, e assim fingindo parecer com os fingidores, os poetas ou os sofistas, embora busque escapar da mera imitação.

34. Daí Sócrates ser uma terceira coisa, um certo terceiro tipo, nem um verdadeiro filósofo que conhece a verdade nem um mero dissimulador, mas um pouco como ambos, e Sócrates se apaga e diz que deixará os verdadeiros filósofos, Timeu e seus amigos, falarem, reservando para si o papel de um receptáculo aberto para o que seus amigos lhe oferecerem, para ser informado por eles, para receber seu dom, e então cabe perguntar se Sócrates não se parece com a khora.

35. Mas é preciso ser sério com Platão, pois isso é apenas o preâmbulo do Timeu, um pouco de encenação teatral, e Platão ainda não chegou ao assunto, a enunciar suas teses, a expor seus logoi, mas cabe perguntar se se pode falar séria e propriamente da khora, como se fosse um ser eterno sobre o qual se pudesse dar um logos estável, ou se se pode relaxar e se divertir contando uma história provável sobre ela, que é tudo o que o mundo provável das aparências sensíveis permite, e a resposta é ambos e nenhum, já que a khora é uma terceira coisa, nem inteligível nem sensível, cujo discurso não pode ser propriamente situado nem como logos nem como mythos, certo ou provável.

36. Em seguida Derrida identifica o texto do Timeu como tendo ele mesmo uma estrutura khoral, pois o Timeu é estruturado como um vasto receptáculo, como uma série de receptáculos narrativos de receptáculos, uma enfiada de mitos contendo mitos, cuja própria estrutura de conter receptáculos espelha a khora mesma, que contém tudo.

37. Crítias conta uma história que traz todas as marcas do que Derrida gosta de chamar de rede postal, uma mensagem que passa através de vários relays postais, o que é de fato para Derrida um traço de todo texto, não apenas do Timeu, e a história que Crítias conta ele se lembra de ter ouvido quando criança de dez anos de seu avô de noventa anos, Crítias o velho.

38. Este por sua vez ouvira a história do grande Sólon, que era amigo de Drópides, o pai do velho Crítias, e Sólon recebera a história de um sacerdote egípcio, que a aprendera de antigos escritos egípcios que registram a fundação de Atenas, e a história então contada a Sócrates pelo jovem Crítias está assim embutida em camadas sobre camadas de textualidade, múltiplas estratificações, caixas dentro de caixas, o que ajuda a dar alguma ideia do que é um texto, a saber, do texere, tecer junto.

39. Qualquer discurso, oral ou escrito, é um texto e passa por essas camadas textuais, e em outro lugar Derrida aponta coisa semelhante sobre a construção do Livro do Apocalipse no Novo Testamento, que presta serviço emblemático como indicador da natureza altamente textualizada do que se chama de escrituras sagradas, o que levanta vários problemas para uma teoria da revelação, e não apenas para fundamentalistas, que não pode ser uma questão de tomar ditado de um locutor divino.

40. O mesmo é verdade de qualquer texto, antigo ou moderno, sagrado ou profano, que seria sempre estruturado, construído de camada sobre camada, dobra sobre dobra, fio sobre fio, de modo que ler um texto é sempre desdobrar, desconstruir o que se passa.

41. A história que Crítias conta concerne ao feito mais nobre da história dos gregos, embora seja desconhecido dos atenienses do século quinto, pois na região egípcia chamada Sais, no Delta, os cidadãos têm uma divindade chamada Neith, que afirmam ser a mesma que os gregos chamam Atena, e daí se considerarem irmãos dos atenienses, tendo uma mãe e deusa fundadora comum.

42. Essa coisa espantosa Sólon aprendeu de um velho sacerdote egípcio que encontrou quando visitou Sais, e o velho sacerdote repreende Sólon e os gregos por serem perpétuas crianças porque são incapazes de preservar registros escritos dos tempos mais antigos, tanto os seus próprios quanto os dos outros, pois enquanto o Nilo protege os cidadãos de Sais dos excessos da natureza, grandes cataclismos entre os gregos periodicamente apagaram seus arquivos históricos.

43. Lançados de volta apenas à memória, as genealogias e histórias gregas são contos de crianças, e o sacerdote prossegue contando ao espantado Sólon, todo ouvidos, que Atenas tinha nove mil anos, mil anos mais velha até que Sais, e florescia como a maior cidade daqueles tempos antigos.

44. Ele descreve a constituição que Atena lhes deu, que por alguma misteriosa coincidência se assemelha à politeia sobre a qual Sócrates falara ontem, de modo que o que Sócrates tomara por apenas a pintura de uma visão ideal é de fato o retrato de um fato histórico esquecido.

45. Então o sacerdote conta a Sólon do valor e habilidade sem paralelo de Atenas ao repelir uma invasão pelo formidável exército lançado da ilha de Atlântida que salvou todo o mundo mediterrâneo da conquista, e depois disso um grande terremoto destruiu a antiga Atenas e engoliu a ilha de Atlântida no mar.

46. Toda essa história, sobre o valor de preservar registros escritos, é recordada com muito esforço durante a noite pelo jovem Crítias, a quem foi recordada pelo velho Crítias, que se lembrava de tê-la ouvido quando criança de Sólon, que se lembrava de tê-la ouvido do sacerdote, tendo sido lembrado dela pelo discurso de Sócrates de ontem, e como de fato poderia ele esquecer uma história que foi gravada em sua mente em idade tão tenra.

47. Tendo dito tudo isso a modo de prefácio, Crítias se oferece a Sócrates para lhe contar a história inteira em detalhe, pois a história da vitória ateniense sobre Atlântida satisfará a exigência de Sócrates de ver a natureza-morta pintada na República posta em movimento, de ver a polis em ação, isto é, em guerra, e Crítias divide a tarefa entre si mesmo e Timeu, que é o astrônomo entre eles.

48. A tudo isso Sócrates responde que não consegue pensar em nada melhor do que receber esse festim da razão, e o restante do Timeu é dedicado ao discurso de Timeu sobre a criação do kosmos, enquanto o que se preservou do discurso de Crítias, sobre a batalha com Atlântida, aparece no diálogo daquele nome.

49. Tanto jogo khoral, tantas encenações, encenações, imagens e reflexos da khora no texto antes de ele se tornar um filósofo, uma cadeia de tradições orais, tantas crianças gregas, reflexos que se refletem, tudo o que é contado a Sócrates, que recebe tudo, que reflete cada imagem, e é recordado por Crítias porque lhe foi contado quando criança, numa idade impressionável, quando a história deixou nele uma marca duradoura, como se pintada com cera em letras indeléveis, pois na infância a mente é como um receptáculo puro.

50. Uma mise en abime enquadradora de ficções encena a cena do Timeu, pois o Timeu é um diálogo fictício que contém outra ficção, abrindo-se por refletir sobre a conversa de ontem, e essa segunda ficção, a República, constrói o modelo fictício de uma cidade ideal, e o breve resumo da politeia por Sócrates no início do Timeu.

51. Sócrates então diz que gostaria de ver essa figura ideal da politeia posta em movimento, como um homem olhando a pintura de um belo animal que gostaria de ver o animal ganhar vida, de modo que a conversa de hoje acrescentaria um segundo grafo mais vivo ao primeiro, e para isso Sócrates diz que ele mesmo seria todo ouvidos, ou todo olhos, um receptáculo pronto, mas não é capaz de gerá-lo ele mesmo.

52. Crítias aceita o desafio, oferecendo-se para contar a Sócrates uma história que ensaiara na noite anterior com Timeu e Hermócrates, que é o conto que aprendeu de seu avô, que por sua vez o ouviu de Sólon, que o ouviu de um sacerdote que o leu nos velhos escritos egípcios.

53. Dessa superfície textualizada múltipla, que de outro modo se tenderia a tratar como uma espécie de preâmbulo literário à filosofia séria por vir, Derrida pergunta como, nesse teatro da ironia, onde as cenas se encaixam numa série de receptáculos sem fim e sem fundo, se pode isolar uma tese ou um tema que pudesse ser calmamente atribuído à filosofia de Platão, ou mesmo à filosofia como a coisa platônica.

54. Fazê-lo é achatar e alisar todas as dobras e fios do texto, negar violentamente a estrutura da cena textual, varrer esse jogo de reflexos como incidentais, marginais, apartes acidentais e se entregar a ainda outra ficção chamada a filosofia de Platão.

55. A análise serve para acentuar a tensão dinâmica entre o efeito tético e a ficção textual, entre de um lado a filosofia ou a política que aqui é associada a Sócrates, conteúdos de significados identificáveis e transmissíveis como a identidade de um saber, e de outro lado uma deriva textual que toma a forma de um mito, em todo caso de um dizer cuja origem aparece sempre indefinida, recuada, confiada a uma responsabilidade sempre adiada, sem um sujeito fixo e determinável, e de uma narração à seguinte o autor se afasta cada vez mais.

56. A origem do texto é cada vez mais retirada, o autor cada vez mais antigo, morto, o texto mais profundamente entrelaçado em outros textos, de modo que não há origem facilmente identificada e assegurada nessa genealogia, nenhum pai do texto claramente identificado, que acaba sendo um pouco um bastardo ou um órfão, em contraste com o que se diz no Fedro, que enquanto os textos escritos são órfãos a palavra viva sempre tem seu pai ou autor à mão para defendê-la de ser mal-entendida.

57. O ponto de Derrida aqui, como em A Farmácia de Platão, seu primeiro e bastante famoso ensaio sobre Platão, é que todo texto, escrito ou oral, é um bastardo ou um órfão, tendo seu pai ou autor partido, e que isso é um traço estrutural do discurso, que está sempre já entrelaçado com e contido por outros textos, cujas raízes afundam num contexto denso que só temos sucesso limitado em desembaraçar, e mesmo um livro de gênese está preso numa genealogia e história familiar que não conseguimos distinguir ou lembrar, e o texto é sempre um bastardo.

58. Esse sistema ou caixas dentro de caixas, recipientes contendo recipientes, essa qualidade khoral, é um traço da textualidade mesma, e todos somos como os gregos que o sacerdote egípcio repreende, crianças cujos pais fugiram da cena familiar.

59. Assim, quando Timeu chega a discutir a khora no meio, no meio-lugar, do Timeu, ele invoca esse esquema familiar, e a khora é chamada de ama que recebe e nutre as coisas sensíveis até a maturidade, ou mãe na qual o eidos engendra sua prole, as coisas sensíveis, e é claro que a khora não é realmente uma esposa ou uma ama mas sui generis, uma terceira coisa, um indivíduo e nem mesmo um gênero.

60. Ela é passiva e indeterminada demais até para engendrar qualquer coisa, e não se pode assimilá-la a qualquer esquema antropológico ou teológico, e ela não é de modo algum uma origem mas, se for algo, a relação do intervalo do espaçamento com o que nele se aloja para ser nele recebido.

61. A khora não é uma origem ou mãe normal, ela e o eidos não formam uma família familiar, um casal feliz, mas isso não é má notícia, pois a khora não é o produto de um pensamento desleixado mas um caso em que Platão pressionou com força o tecido da filosofia, em que Platão se encontra diante de algo que escapa à filosofia, que a elude e lhe é exterior, mais antigo que a filosofia, pré-filosófico, do qual a filosofia não sabe falar nem verdadeira nem provavelmente.

62. É por isso que a filosofia tende a se agarrar ao pai, o eidos, e ao seu filho legítimo, o cosmo, como se o pai gerasse o filho sem a ajuda de uma mulher, uma biologia ruim da qual toda a história da filosofia e da teologia dá amplo testemunho.

63. Para pensar a origem do kosmos é preciso voltar a algo fora do pensamento, fora da mente, como a antiga Atenas recordada pelo sacerdote egípcio mas apagada sem vestígio e completamente esquecida pelos atenienses do tempo de Sócrates, e pelo mesmo token a filosofia deve invocar uma pré-origem esquecida que está estruturalmente perdida para a memória da filosofia.

DOIS TRÓPICOS DA NEGATIVIDADE

1. Pode parecer às vezes que a khora se parece um pouco com o Deus desconhecido, o deus absconditus, a origem misteriosa além da origem, sobre a qual não se pode dizer nada, e essa confusão ou convergência da desconstrução e da teologia negativa foi algo pelo qual Derrida foi criticado, por que não parabenizado, logo de saída, em 1967, na primeira apresentação do ensaio sobre a différance, ao que ele respondeu em várias ocasiões, incluindo um ensaio de 1986 intitulado Como Não Falar: Negações, que inclui uma interessante discussão da khora.

2. Embora o ensaio Khora seja um prefácio, sobre o prefácio do Timeu, a uma obra ainda inédita, Como Não Falar explora a analogia e, mais importante, a desanalogia da khora com o Deus da teologia negativa, e esse ensaio oferece uma oportunidade de aprender algo sobre a différance e de entender algo, ainda que algo negativo, sobre a relação entre desconstrução e teologia.

3. Nesse ensaio Derrida chama a atenção para a tensão entre o que ele chama de dois trópicos da negatividade, isto é, dois modos opostos em que o pensamento filosófico se depara com seus limites, com algo que resiste a ser dito, duas coisas igualmente indizíveis mas por razões bastante opostas.

4. O primeiro é o texto mais familiar e prestigioso de toda a obra de Platão, o que figura em todas as antologias padrão usadas nos cursos de Introdução à Filosofia, a famosa e sublime passagem da República 509Bff. na qual Platão descreve a ideia do Bem como além do ser, e aqui o movimento, o trópico, da negatividade, do não-dizer ou da indizibilidade, é ascendente, hiperbólico, obedecendo a uma lógica do sur, do hiper, sobre e além, que anuncia todos os hiperessencialismos do neoplatonismo cristão.

5. Pois a tradição da teologia negativa, que vai do pseudo-Dionísio Areopagita a Mestre Eckhart, girava em torno de uma visão do Deus cristão que fora basicamente moldada nos termos da teoria platônica do Bem além do Ser, e nesse primeiro movimento o pensamento correu contra um excesso de transcendência, um ser de tal sur-realidade supereminente que, embora dando nascimento ao ser, ao movimento e ao conhecimento, é ele mesmo além de todos eles.

6. Ainda assim, como prole de seu pai e causa, o mundo sensível é como o Bem, e assim o excesso do Bem está situado dentro de uma comunidade analógica em virtude da qual o mundo sensível é dito ser como o mundo inteligível, e daí o Bem poder ser sensivelmente comparado ao sol do mundo sensível, pois como o sol o Bem não é nem visão nem visível, nem conhecimento nem inteligível, mas uma terceira coisa, a saber, sua luz, causa e meio.

7. Mas a khora constitui outro modo de ser de outro modo que o Ser, outro tipo de terceira coisa, que se move numa direção plenamente oposta e se submete a trópicos diferentes, pois em vez de hiperexistência ou ser supereminente a khora parece cair abaixo do ser, mal ser de todo, ser se for o caso quase nada.

8. Derrida sustenta que Platão adotou dois modos muito heterogêneos de falar sobre esse reino aniquilado ou sombrio chamado khora, sobre o qual é admitidamente muito difícil falar, mas por razões opostas às do Bem, e na primeira estratégia a resistência da khora ao discurso filosófico é quebrada e a khora é assimilada à filosofia, designada a um lugar interior à filosofia, e isso por meio de ser tratada segundo o modo clássico da analogia que governa a alegoria da caverna.

9. A khora mesma não é nem inteligível nem sensível, mas participa de predicados de ambos, e daí poder ser analogicamente dita mãe, ama, peneira, receptáculo, impressão, o que permite esboçar uma espécie de sagrada família platônica em que o pai, a forma, gera sua prole, a coisa sensível, na mãe, o receptáculo, ou se pode dizer que o receptáculo segura e abraça a coisa sensível como uma ama.

10. Isso tira a khora enjeitada das ruas e lhe proporciona um lar na sagrada família da filosofia, no interior da história canônica da filosofia, como uma predecessora da hyle aristotélica, da extensio cartesiana e da forma pura do espaço em Kant.

11. Mas é o segundo modo que Platão também descreve a khora que interessa mais a Derrida, pois aqui a khora tende a escorregar para fora da filosofia, a resistir a qualquer esquema analogizante ou participativo, a permanecer à deriva e perdida.

12. Ora, Platão diz que a khora é amorfa, e embora as coisas venham a ser e pereçam nela, a khora mesma não se torna nem participa de nenhuma dessas coisas, e embora a khora assuma a aparência das coisas com que é preenchida, isso é verdade só enquanto elas persistem e essas coisas de modo algum a mancham ou marcam em sua breve estação.

13. Daí a khora não poder ser assemelhada nem às suas impressões sensíveis, que dela desaparecem sem deixar traço, nem aos paradigmas inteligíveis, que dela estão ainda mais removidos, e portanto não é um receptáculo, porque é mais velha que qualquer receptáculo, que é algo posteriormente nela inscrito.

14. Como algo absolutamente indiferente a qualquer coisa sensível ou inteligível, não pode ser tratada metaforicamente, o que sempre equivale a fornecer uma semelhança sensível para algo inteligível, e não é tanto um terceiro gênero quanto nenhum gênero, sem determinação genérica.

15. A khora está simplesmente ali, há khora, e isso no sentido mais minimalista, e esse há não deve ser confundido com qualquer generosidade, não deve ser tomado como significando que ela dá algo, como no alemão es gibt, pois não é nada bondosa e generosa, e não dá nem proporciona um lugar, que é a armadilha em que Heidegger cai quando encontra um dar nesse es gibt que põe o pensamento como agradecimento em sua dívida.

16. Nem é propriamente receber, já que é inafetada por aquilo com que é preenchida, e não é nem mesmo absolutamente passiva na medida em que tanto operações ativas quanto passivas se dão nela, e resiste a toda analogia teomórfica ou antropomórfica, e não é nenhum tipo de isso que é ou faz ou dá qualquer coisa.

17. Daí a khora, da qual não se pode falar nem propriamente nem metaforicamente, empurrar contra os próprios limites da nomeação, e o ponto de sua análise, diz Derrida, é mostrar que essa impossibilidade de encontrar um nome próprio para a khora, o mot juste por sobre e fora de algum tropo retórico ou outro, não é algum tipo de falha da parte de Platão, ou a má sorte que essa passagem do Timeu teve na história da interpretação, mas um traço estrutural do pensamento de Platão.

18. Platão foi forçado pelas próprias coisas a incluir a khora em seu relato, não pode não falar dela, mas não sabe como não falar dela, isto é, respeitar sua negatividade, pois a tarefa de discutir a khora é a de determinar algo indeterminável, algo que não pode em princípio assumir qualquer determinação, nem a do paradigma nem a da cópia.

19. Tudo o que Platão diz dela, ou que se diz dela na história da interpretação, chega tarde demais, constituindo uma ilusão retrospectiva, um anacronismo nascido de falar dela em termos emprestados das coisas que ela contém mas das quais ela mesma se retira.

20. A khora é indiferente a toda determinação, não serena ou sublimemente indiferente, pois é baixa demais para isso e esse é o trópico e o tropo errado, mas digamos abissalmente indiferente, e a khora é sempre prévia a qualquer marca ou impressão, a qualquer forma ou determinação que lhe seja atribuída, não tem nada próprio, nenhuma propriedade sua.

21. Recebe tudo e não se torna nada do que recebe, como o ar que permanece livre da luz pela qual é sufuso, como um espelho que permanece inafetado pelas imagens que vão e vêm por sua superfície, e a khora pertence a um tempo fora da mente, fora da memória, a uma pré-origem mais velha que a memória, como a antiga cidade de Atenas que travou batalha com Atlântida apenas para desaparecer sem deixar traço.

22. Dessa coisa implacavelmente e impossivelmente difícil não se sabe como falar nem como evitar falar, e de fato é essa impossibilidade que impele a necessidade de dizer algo sobre ela, e a khora não é um universal, o lugar abstrato em geral, nem um particular, um lugar contido, mas algo radicalmente singular, o lugar mesmo, dentro do qual múltiplos lugares são inscritos.

23. Como toda singularidade ela porta um nome próprio, tratar Khora como se fosse um nome próprio, como alguém que se conhece, com maiúscula, mesmo não tendo nome próprio ou propriedade essencial mas apenas assumindo a forma do que quer que a habite, pois se precisa, se deve, falar de algo como a khora, que não é algo e que não é como nada, algum modo de determinar esse algo totalmente indeterminável.

24. Precisa-se de algum modo de endereçá-la, não a khora mas ó Khora, e cabe perguntar quem és tu, Khora, e ao usar a palavra khora e assim lançar mão do estoque de substantivos gregos comuns Platão recolhe um traço deixado na linguagem por algo que se retirou da linguagem, afundando abaixo de sua superfície, como Atlântida afundando no mar.

25. O discurso sobre a khora forma assim uma inversão quase perfeita do discurso sobre o Bem, pois de um lado as coisas são descritas de cima, num trópico de hiper e au delà, começando com o Bem como o supremo real, hiperessencial, a fonte sur-real das coisas sensíveis e a luz inextinguível na qual se vê que são as cópias de seus paradigmas inteligíveis, o que proporcionaria todo o esquema agradável ao neoplatonismo cristão, que se apoderou dele como um modo de articular sua experiência da transcendência de Deus.

26. Do outro lado as coisas são explicadas de baixo, num tropo de hypo e en decà, começando com uma origem quase perfeitamente ininteligível ou indeterminada, ou não-origem, ou pré-origem, na qual as coisas sensíveis são inscritas segundo padrões eternos, e de um lado uma sur-realidade hiperessencial para a qual as palavras nos faltam, da qual as palavras ficam aquém, e do outro uma sub-realidade hipoessencial, uma indeterminação quase irreal e indeterminável que parece antes faltar às palavras, ficar aquém da palavra ou do sentido.

27. Em termos bíblicos talvez fosse um pouco mais parecido com o caos sobre o qual o espírito de Deus se debruçava, e de um lado a hipérbole e o excesso de ser, essência e sentido, e do outro a defecção, menos que sentido, essência e ser, de um lado um filosofema clássico e do outro a textualidade exorbitante, e a differance.

DIFERENÇA: KHORA É SEU SOBRENOME

1. Derrida se interessa pela khora por razões de família, não porque a khora seja uma mãe ou uma ama de leite, mas porque ela é uma prima da desconstrução, um parente dos sem-parentes, do mesmo não-gênero que o que ele chama de differance.

2. Se a differance é aquilo de que a desconstrução trata, numa nutshell, então a khora é seu sobrenome, e para empregar uma famosa imagem platônica, a história da khora funciona como uma alegoria da differance, cada uma abordando uma comum e aparentada não-essência, impropriedade e ausência de nome.

3. Assim como Platão compôs a alegoria da caverna para explicar o excesso superante do agathon, também do outro lado do ser Derrida pode pôr a história de Timeu sobre a khora a trabalhar para explicar a recessividade baixa da differance, as humildes terras traseiras ou o avesso do ser.

4. Isso também ajuda a entender a divergência da desconstrução e da teologia negativa, já que a differance é prima da khora, não de Deus, e Derrida ama a khora do modo como ama a differance, filhos ilegítimos ambos.

5. Em outra obra intitulada Sauf le nom, a segunda parte de uma trilogia sobre o nome da qual Khora é a terceira parte, Derrida fala de algo sem coisa, como uma khora indesconstruível, mas algo como a khora é indesconstruível não porque seja um fundamento firme, como um chão ou princípio metafísico, ou como a forma eterna do Bem, que possa ser abrigado da desconstrução.

6. Antes, sua indesconstruibilidade surge porque ela é um lugar que tem lugar como o próprio espaçamento da desconstrução, o espaço no qual tudo o que é construível e desconstruível se constitui, e portanto além do alcance da construção ou desconstrução, e a differance, como a khora, é um grande receptáculo sobre o qual todo traço ou marca constituído é impresso, mais velho, prévio, preoriginário.

7. Longe de portar uma semelhança com o Deus dos grandes monoteísmos, um super-ser que é afirmado tanto mais eminentemente quanto negado na teologia negativa do neoplatonismo cristão, um Deus ao qual o agathon de Platão porta uma semelhança de família, a differance é melhor comparada à khora, isto é, ao lugar incomparável, ametáforizável, desértico, sem propriedades ou gênero.

8. Em vez da edificante, elevadora, altamente própria e propícia semelhança de família de Deus e o agathon, o pai de todos nós, tanto acima quanto além do Ser, essas são as melhores famílias e circulam nos mais altos círculos, talvez seja melhor, mais gráfico, pensar a khora e a differance como um par de bastardos.

9. Como aparte, vale também perguntar a si mesmo onde estariam os corações dos profetas e de Jesus, com os aristocratas da rua Saint James, os melhores e mais brilhantes, ou com os bastardos dickensianos.

10. Levinas gostava de dizer que, embora o Deus transcendente das escrituras hebraicas fosse sistematicamente excluído pelas categorias totalizantes da filosofia grega, ainda assim de tempos em tempos a alteridade absoluta de Deus irrompia na filosofia, mais notadamente na ideia cartesiana da infinidade de Deus na Terceira Meditação e na noção platônica do epekeina tes ousias, o Bem além do ser.

11. Derrida pode ser entendido como fazendo um contramovimento a Levinas, ou melhor, oferecendo uma contraparte pela qual o gesto levinasiano é sempre já perturbado, pois nunca será uma questão de escolher entre esses dois.

12. Para Derrida a khora pode ser tomada como um desses lugares na história da filosofia onde a diferença pela qual todas as coisas são habitadas se gasta, onde o abismo nas coisas se abre e se vislumbra a falta de fundamento das crenças e práticas.

13. O rosto da outra pessoa, diz Levinas numa imagem muito edificante e bela no fim de Otherwise than Being, é o traço que Deus deixa atrás de si ao se retirar do mundo.

14. A khora, Derrida poderia dizer, numa imagem mais rebaixadora e não tão bela, é um dos traços que a differance deixa em Platão, nos gregos, na filosofia, em nós, pois nós todos somos marcados pelos gregos e por sua filosofia, ao se retirar de vista.

15. Como o espaçamento no qual os traços de nossas crenças e práticas são inscritos, a differance está em retrait, e é por isso que Derrida diz que ao falar da khora Platão não simplesmente inventou alguma ideia totalmente nova, mas antes tomou emprestada uma palavra do estoque comum de substantivos gregos, mas uma palavra na qual uma certa ausência de forma ou de nome deixou sua marca.

16. Algo sobre o que a filosofia não pode filosofar, algo que resiste à filosofia, que se retira da visão e do alcance da filosofia, não de cima, como no modo edificante e elevador de Platão, Levinas e da teologia negativa, mas de baixo, como que passando sob a visão da filosofia, baixo demais para a filosofia ir, atrás e abaixo do discurso assegurado da filosofia.

17. Na khora Platão dá expressão a uma necessidade intratável abaixo, uma pré-origem acrônica e incontornável, que não deve ser confundida com a Verdade Eterna e Originária, com maiúsculas para os senhores importantes, dos paradigmas inteligíveis acima.

18. A estranha dificuldade de todo esse texto reside de fato na distinção entre essas duas modalidades, o verdadeiro e o necessário, e o golpe ousado consiste aqui em voltar atrás e abaixo da origem, ou também do nascimento, em direção a uma necessidade que não é nem geradora nem engendrada e que carrega a filosofia, precede e recebe o efeito, aqui a imagem das oposições, inteligível e sensível, a filosofia.

19. Essa necessidade, cujo sobrenome é khora, parece tão virginal que não tem mais sequer o nome de virgem.

20. Na khora Platão afirma, ou concede, uma contra-origem, uma não-origem não-engendradora, sem verdade, intratável e necessária, lá embaixo, que a seu modo zomba do poder prestigioso, paterno, originário e veridictivo do eidos, e acima de tudo do Bem, lá em cima.

21. No que diz respeito a Derrida, Platão aqui se depara com o efeito que a differance sempre produz, correndo contra a necessidade que a differance sempre impõe a qualquer discurso, e a khora é seu sobrenome, e por necessidade Derrida não entende uma verdade eterna ou necessária mas a necessária não-verdade que se força em toda veritas.

22. Assim Derrida se interessa pela khora porque a considera um sinal, um indício ou uma pista de que a filosofia está numa certa encrenca aqui, como um político a quem se faz uma pergunta embaraçosa para a qual seus avançados não o prepararam, e Platão aqui se deparou com um efeito da differance e pode ser lido como nos contando uma história provável sobre a differance, oferecendo uma imagem especular ou semelhança daquilo que rouba à sua distinção assegurada entre origem e cópia a sua segurança.

23. Então, se puder suportar, se não estiver já tonto demais, propõe-se uma última mise en abime, a khora reflete a differance, um jogo de reflexos num poço negro, e Khora é seu sobrenome, seu sobre-nome, o nome que se inscreve sobre um abismo.

24. Pois assim como a khora, ao proporcionar o espaço dentro do qual a cópia sensível do inteligível é inscrita, precede e precontém a oposição entre os dois, também a differance precede e precontém todas as oposições que nela são inscritas, incluindo aquelas distinções oposicionais com que a filosofia abriu seu negócio entre os gregos.

25. Então, como o tolo que diz em seu coração que Deus não existe, pergunta-se o que a differance é, numa nutshell, tendo devidamente notado a impossibilidade de perguntar algo tão tolo.

26. Por différance Derrida não entende nada misterioso, tecnicamente falando différance não significa nada de todo, e se significa, ele, Derrida, não o significa, pela mesma razão que ela não responde a um quê nem a um é.

27. No sentido mais tentativo e geral Derrida está descrevendo o código da repetibilidade, do qual a linguagem é o exemplo mais familiar mas de modo algum o único, dentro do qual nossas crenças e práticas são inscritas.

28. Em vez de pensar a linguagem do modo clássico, como um conjunto de signos exteriores de pensamentos interiores já constituídos, outro traço definidor do logocentrismo, Derrida, seguindo Saussure e a linguística moderna, pensa os usuários da linguagem invocando marcas ou traços codificados, isto é, repetíveis, que constroem ou constituem de dentro certas unidades de significado como efeitos do código.

29. Esses traços não são inerentemente significativos em si mesmos mas arbitrários e convencionais, e assim não faz diferença se se diz rex, roi ou king desde que nós, os que compartilhamos essas convenções, possamos distinguir entre rex e lex, roi e loi, king e sing, e o significado e a referência são função da diferença, da distância ou do espaçamento entre os traços, o que se chama, de modo perfeitamente sério, o jogo das diferenças ou traços.

30. Pelo jogo das diferenças Derrida não entende algo caprichoso, como pular nu pelos Champs-Élysées, mas o espaçamento diferencial, a distância discernida, os intervalos percebidos, ouvidos, vistos, entre traços primeiramente analisados na linguística estrutural.

31. Que o significado e a referência são função do jogo das diferenças é confirmado de modo perfeitamente sério e bastante senso comum toda vez que se usa um dicionário, pois o significado e a referência de uma palavra num dicionário são definidos em termos de outras palavras com que ela está internamente relacionada.

32. Uma palavra tem um lugar num dicionário, não apenas aquele que se tem que procurar, que é função de sua configuração gráfica, sua grafia, mas também um lugar ou configuração semântica, uma posição, uma gama de conotação e denotação relativa a outras palavras, lugares, na língua, e o significado de uma palavra é definido diferencialmente, relativamente ao significado de outras palavras.

33. O que nunca se encontrará no dicionário é uma palavra que se desprenda dessas relações internas e o mande navegar direto para fora do dicionário até uma mítica e mística coisa em si fora da linguagem, melancolicamente chamada o significado transcendental, e um dicionário sério é um bom e sóbrio exemplo do jogo das diferenças, do espaçamento diferencial dentro do qual, e por meio do qual, todos os usuários da língua fazem o sentido que conseguem fazer.

34. Assim quando Derrida diz da khora que ela é a relação do intervalo ou do espaçamento com o que nele se aloja para ser nele recebido, isso também é bem dito da differance, para falar obscuramente e através de um véu, e nunca face a face, da differance.

35. Em termos clássicos Derrida é profundamente resistente ao essencialismo, a noção de que há significados ideais, presença, que de algum modo antecedem o jogo dos traços ao qual o jogo deve se conformar, deve representar, e o essencialismo é uma visão que legitimamente traça sua genealogia até o próprio Platão, até ao menos um Platão, o famoso, dominante, ortodoxo, patriarcal, aristocrático, clássico e filosófico, aquele que se tem que conhecer para passar no curso sobre Platão.

36. Derrida sustenta por outro lado que a presença é sempre o efeito do jogo dos traços, das representações, daí seu dito não tão paradoxal de que a presença é o efeito da representação, pois o significado e a referência são sempre construídos lenta e tentativamente de baixo, de dentro das redes de códigos e pressupostos dentro dos quais todos sempre e já operamos.

37. A noção de differance de Derrida resulta de introduzir duas melhorias nesse ponto de partida saussureano, e em primeiro lugar Derrida argumenta que, embora regrado até certo ponto, e sejamos sérios, certamente há regras de gramática e de uso, práticas linguísticas padronizadas e normalizadas, o jogo dos traços não é um sistema fechado mas em última análise um jogo aberto.

38. Ele argumenta contra o fechamento do jogo e sustenta que os efeitos de que a iterabilidade, o código da repetibilidade, é capaz não podem em princípio ser contidos, programados ou previstos, e é sempre possível em princípio, como questão estrutural, repetir diferentemente, o que está embutido na própria ideia de iterabilidade ou repetição.

39. Além disso quaisquer leis que se forjassem seriam elas mesmas efeitos ou subconjuntos do jogo dos traços, seriam nele inscritas mais tarde e assim não o governariam a priori, mais cedo, e o jogo das diferenças é sempre mais velho que qualquer de seus efeitos, constituindo um quase-arquivo antes da lei arquivística que as regras imporiam.

40. As leis são sempre desconstruíveis, mas o jogo dos traços, em si mesmo, se tem um si mesmo, não é desconstruível.

41. É por isso que Derrida também falará da différance como uma archi-escritura, o que aqui se reflete quando ele chama a khora de pré-origem, e por archi-escritura Derrida não entende que historicamente a escritura é mais velha que a fala, como seus críticos descuidados precipitadamente alegam, nem está tentando estabelecer a escritura como um princípio da linguagem ainda mais alto que quaisquer leis lógico-semânticas.

42. Em vez de sobre um fundamento firme ou um sistema perfeitamente fechado ele está tentando puxar o plugue de qualquer sistema à prova de vazamento, reconhecendo um não-princípio ainda mais baixo, uma necessidade desassossegadora e deslocadora sob a qual estamos de labutar sempre sob um jogo de traços, tendo que lidar com uma iterabilidade irreprimível que nunca pode ser contida ou decisivamente regulada.

43. Ele não demarca o terreno de um princípio superior mas concede uma certa an-arche no fundo de nossos princípios, e Derrida não está negando que temos princípios e verdade, que a palavra se propague e que não haja erro sobre isso, mas apenas reinscrevendo nossas verdades e princípios dentro da an-arche da différance, anexando-lhes um coeficiente de contingência.

44. Pois a única necessidade que ele reconhece é a necessidade que precede todas as oposições, incluindo a que há entre o princípio e o que se baseia no princípio, a necessidade, a exigência, de sempre forjar verdades e princípios lentamente de baixo, inscrevendo-os num vasto e sem-sentido receptáculo chamado différance.

45. É por isso que não se pode, stricto sensu, perguntar o que a différance é, ou por seu significado ou verdade, pois estritamente falando ela é a condição de possibilidade dessas coisas, que são tantos efeitos de seu jogo, traços traçados em sua superfície, dos quais ela mesma se retira.

46. Mais estritamente ainda, a différance é uma quase-condição de possibilidade, porque não descreve fronteiras fixas que delimitem o que pode acontecer e o que não, mas aponta um dedo mudo e budista para a lua de efeitos incontíveis.

47. Tudo, do Deus do neoplatonismo cristão a montes de lixo, das mais sublimes leis da física ou da ética ao discurso de ódio no programa de rádio de Rush Limbaugh, da Declaração de Independência ao rap de esquina, tudo é inscrito na différance, que é sua quase-condição possibilitadora e também ligeiramente incapacitadora.

48. Essa noção da différance como quase-condição fornece a resposta à questão da analogia ou convergência da desconstrução e da teologia negativa, pois a desconstrução é profundamente enamorada dos recursos estratégicos e formais da teologia negativa.

49. A desconstrução ama o modo que a teologia negativa encontrou de dizer o indizível, as voltas e reviravoltas que ela dá ao lidar com o impossível pelo qual foi atingida, com seu desejo impossível, tudo o que Derrida profundamente admira, de modo que ser comparado com a teologia negativa não é crítica para ele mas um alto elogio que o associa às melhores famílias.

50. Mas no fim Derrida deve adiar essa honra e declinar esse alto elogio e confessar que a desconstrução consorteia com bastardos, pois a desconstrução tem a ver não com o hyperousios, o super-ser além do ser, mas com algo como a khora, uma prima se tal coisa existe, algo que não é nem um ente nem um não-ente mas uma certa quase-condição dentro da qual ambos são inscritos.

51. Assim Derrida pensa a teologia negativa como uma espécie de hiperessencialismo, diante do problema de como não falar de um ser transcendente além do ser, enquanto a desconstrução, humildemente e de baixo, tem o problema de como não falar dessa condição quase-transcendental, dessa necessidade ou condição necessária, dessa condição de possibilidade e impossibilidade chamada différance.

52. Para tentar fazer essa necessidade sem verdade, essa necessária não-verdade, parecer mais edificante, pense-se no modo como, depois da maçã, Deus mandou Adão e Eva embora e lhes impôs a necessidade do trabalho, do suor e da dor, e mais tarde, depois da torre, disseminou as línguas dos construtores em Babel e lhes impôs a necessidade da tradução.

53. Justamente assim a différance sem deus nos impõe a todos a necessidade de elaborar significado e referência pelo trabalho, suor e dor do jogo, alguma diversão, das diferenças, a necessidade de traduzir entre muitos códigos concorrentes, de lidar até com códigos incompatíveis, e de manter a cabeça enquanto um mar de iterabilidade nos inunda.

54. Ainda assim essa necessidade não faz Derrida perder o ânimo, pois esses traços não são negativos mas antes um modo de manter as coisas abertas, já que a desconstrução para Derrida é sempre uma afirmação do outro, um modo precursor de abrir caminho para a invenção do outro.

55. Assim boa parte das análises empreendidas por Derrida testa os limites, empurra para as fronteiras, transgride as fronteiras que são postas pelas várias ologias que regulariam a liberdade an-árquica do traço.

56. Derrida está constantemente interessado nos novos, imprevisíveis, não programáveis efeitos que estão por vir, vindouros, inventáveis dentro de um conjunto de convenções atualmente prevalecente.

57. Daí, se Derrida não é um essencialista, tampouco é um convencionalista, pois o convencionalismo é apenas um modo alternativo de regular e conter o jogo dos traços, e a desconstrução é antes um convencionalismo não convencional, um inventivismo, decidido a dar às coisas uma nova dobra ou torção, a se torcer livre dos efeitos conteedores tanto do essencialismo quanto do convencionalismo, a fim de liberar certos efeitos imprevisíveis, procurando aberturas, abrindo espaço para, dando lugar a, o que é imprevisível relativamente a algum horizonte de previsibilidade.

58. Além de argumentar contra o fechamento, Derrida também generaliza o que era originalmente um modelo linguístico em Saussure, de modo que a différance não se restringe à linguagem mas deixa sua marca em tudo, instituições, sexualidade, a teia mundial, o corpo, o que se precisa ou quer.

59. Isso não equivale a argumentar que essas coisas são todas linguísticas, um erro que ele chama de linguisticismo, o que é verdade só até certo ponto, mas antes ele argumenta que, como a linguagem, todas essas estruturas são marcadas pelo jogo das diferenças, pelo espaçamento do qual a différance é um dos nomes.

60. É por isso que ele fala do traço e não do significante, que pertence à linguística e o implicaria num linguisticismo do qual ele não teria parte, embora esse seja um erro do qual ele é comumente acusado por pessoas que devem, está-se convencido, estar se baseando em relatos de segunda mão de sua obra.

61. No capítulo anterior viu-se o profundo interesse que Derrida tem pelas instituições, pois numa instituição os indivíduos são distribuídos através de um espaçamento institucional hierarquizado, um jogo de lugares que define de antemão o papel, o poder e a voz do indivíduo, algo que se encarna em expressões como o escritório principal, o último andar e o corredor do poder.

62. Viver e trabalhar dentro de uma instituição é exercer uma função diferencial, ser inserido ou inscrito dentro do espaço diferencial da hierarquia institucional, e esse espaçamento é verdadeiro não menos da sociedade em geral.

63. Contrariamente ao rousseaunismo, o jovem Derrida argumentou que mesmo a mais primitiva das sociedades é marcada por esse espaçamento, hierarquia, différance ou archi-escritura, mesmo que tal sociedade careça de escritura no sentido estrito ou estreito.

64. Onde quer que se esteja, está-se colocado dentro de um jogo de diferenças, recebido ou inscrito dentro da différance, numa família, numa instituição, numa sociedade, numa língua, numa história, numa disciplina acadêmica, num exército etc.

65. Ou numa relação sexual, daí toda a atenção que Derrida dedica às questões de gênero em torno da khora, pois o debate sobre a homossexualidade se reduz a um debate sobre um espaço sobre-organizado, sobre-regulado e estreitamente oposicional no qual há apenas dois lugares hierarquicamente ordenados, uma binaridade de masculino e feminino, de masculino sobre feminino.

66. Para Derrida o modo de romper isso é abrir todos os outros lugares que esse esquema binário fecha, e na visão de Derrida masculino e feminino são recipientes fixos, prisões, aprisionando os homens não menos que as mulheres num lugar, num papel, fechando a possibilidade de inúmeros gêneros, não apenas dois.

67. É por isso que o feminismo, embora constitua um momento estrategicamente necessário de reversão, uma subversão salutar que purga o sistema de sua presente hegemonia masculinista, deve ceder lugar ao deslocamento, que é um gender bender mais radical no qual todo o esquema masculino-feminino é enviesado.

68. Assim a différance, o terceiro tipo ou gênero, torna possível ir além, ou abaixo, de dois tipos, não apenas para três, mas para o inumerável, isto é, para as possibilidades indefinidamente novas, porque diferenciais, que se abrem uma vez que se reconhece a contingência do dois, e cabe perguntar um, dois, três, mas onde, meu caro Timeu, está o quarto.

69. Não se deve deixar de notar que Derrida descreve esse sonho de inúmeros gêneros como coreografias, khora-ografias, isto é, a marcação alegre e dançante de lugares, multiplicando os lugares do espaçamento sexual.

70. Os efeitos de uma análise desconstrutiva no que diz respeito às questões de gênero cobrem uma ampla gama, pois a desconstrução quer deixar homens héteros entrarem em contato com seu lado feminino, e mulheres héteras com seu lado masculino, e assim dobrar um pouco essas ortodoxias retilíneas.

71. Mas também fica feliz em ver homens entrarem em contato com homens, e mulheres com mulheres, direitos gays e lésbicas, o que também significa héteros, dilige et quod vis fac, mas no fim ela disseminaria a própria ideia de masculino e feminino como camisas de força estreitas, contingentes e constrangedoras, efeitos retos dentro de um jogo indefinido e diferencial de traços.

72. A différance, contendo tudo, incluindo todos os gêneros, todos os lugares, é um pandekhon, não como uma mãe recipiente universal que materniza, ama ou segura tudo, mas, mais paradoxalmente, como um receptáculo aberto e poroso do incontível, de efeitos inumeráveis e incalculáveis, como um não-princípio, uma an-arche.

73. A différance é um receptáculo absolutamente neutro, khora é seu sobrenome, que nada suprime, liberando o inumerável, o imprevisível, a invenção do outro.

74. A différance é o nome sem nome desse jogo aberto, incontível e generalizável de traços.

75. E khora é seu sobrenome.

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