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REFORMA E CONTRARREFORMA

MULLETT, Michael A. Historical dictionary of the Reformation and Counter-Reformation. Lanham, Md: Scarecrow Press, 2010.

  • A Reforma Protestante do século XVI tem sido tradicionalmente interpretada como o marco inaugural da modernidade europeia, ao romper a unidade cristã medieval e inaugurar um continente de estados autônomos e nacionais independentes de Roma.
    • A cristandade medieval era organizada como um corpus Christianorum — corpo unitário de todos os cristãos — sob a liderança do papado
    • Reinos como Inglaterra e Suécia emergiram com aparatos estatais muito mais robustos do que anteriormente
    • O estado moderno poderoso é, em muitos aspectos, herdeiro das monarquias reformistas do norte europeu do século XVI
    • A Revolta dos Países Baixos e as Guerras de Religião francesas geraram ideologias e literaturas de protesto que afirmavam os direitos do cidadão frente ao estado — bases das premissas políticas ocidentais modernas
  • A Europa medieval tomava como pressuposto a necessidade de unanimidade religiosa e criou instituições como a Inquisição para impô-la, mas esse consenso herdado entrou em choque com a diversidade confessional emergente na segunda metade do século XVI.
    • João Calvino, a rainha Maria I da Inglaterra e Tomás Moro são exemplos proeminentes de pensadores que herdaram a premissa da repressão como garantia da unidade da fé
    • Sebastião Castelião foi uma voz notável a defender a tolerância e a diversidade religiosa
    • Na União de Utrecht (1579) nos Países Baixos e no Édito de Nantes (1598) na França, a visão medieval de unanimidade religiosa foi abandonada
    • O nascimento do pluralismo religioso no século XVI pode ter contribuído para a secularização da Europa moderna e até para a descristianização em larga escala, que se acelerou na segunda metade do século XX
  • Diante da diversidade religiosa, buscou-se recorrentemente a unanimidade por meio de fórmulas de compromisso doutrinal, mas os defensores de linhas dogmáticas inequívocas prevaleceram sobre os conciliadores.
    • Desidério Erasmo, ao insistir que a ética — e não o dogma — era a marca do verdadeiro cristão, foi pioneiro na busca do compromisso
    • Filipe Melanchthon foi o mais persistente defensor da reunificação por meio de comunicados conciliatórios, como a Confissão de Augsburgo
    • O colóquio de Regensburg (Ratisbona), na primavera de 1541, e o de Poissy, na França, em setembro de 1561, exemplificaram a busca do acordo perdido
    • Martinho Lutero, do lado protestante, e figuras como G. P. Carafá, do lado católico, lideraram a ofensiva contra o compromisso
    • A Declaração Conjunta sobre a Justificação de 1999, entre participantes católicos alemães e luteranos evangélicos, representou avanço significativo no ecumenismo contemporâneo
    • Melanchthon é apontado como figura tutelar da busca pela unidade cristã no século XXI
  • A Reforma também foi amplamente associada aos primeiros impulsos do capitalismo moderno, embora reformadores como Lutero e Calvino insistissem na primazia das preocupações religiosas e morais sobre a vida econômica.
    • Calvino em particular foi reivindicado como patrocinador de um código de frugalidade, autocontrole e diligência que teria dado origem às estruturas econômicas dominantes do mundo moderno
  • Embora a Reforma aponte para a modernidade em algumas dimensões, as preocupações centrais do século XVI eram essencialmente medievais, presididas pela figura de Agostinho de Hipona (354–430), o mais influente dos Padres da Igreja.
    • Lutero, com sua autoconsciência introspectiva e sua afirmação dos direitos da consciência individual — expressa de modo mais contundente na Dieta de Worms de 1521 — pode parecer um pioneiro do individualismo moderno
    • As preocupações permanentes de Lutero como teólogo eram as de seus predecessores medievais: o grau de liberdade da vontade, a predestinação, a natureza da presença de Cristo na eucaristia e, sobretudo, a relação entre iniciativas humanas e divinas na salvação
    • Lutero afirmou: “minha teologia, que é a de Santo Agostinho… a teologia da Bíblia, de Santo Agostinho e de todos os verdadeiros teólogos da Igreja”
    • A influência de Agostinho foi igualmente forte nos debates do Concílio de Trento e inspirou as Institutas da Religião Cristã de João Calvino, concebidas como compilação sistemática da teologia agostiniana
  • Na Disputa de Leipzig de 1519, Lutero tomou pleno conhecimento das ideias do dissidente religioso tcheco Jan Hus e descobriu seus próprios precedentes doutrinais numa cadeia ininterrupta que chegava ao passado distante.
    • O mentor de Lutero, Johann von Staupitz, é mencionado nessa cadeia de continuidade doutrinal
    • Lutero declarou: “Até agora ensinei e sustentei, sem o saber, todas as opiniões de Jan Hus; assim também Johann Staupitz; em suma, somos todos hussitas sem o saber. Paulo e Agostinho são hussitas palavra por palavra”
  • A Reforma do século XVI consistiu, em sua essência, numa busca incessante de retorno às fontes — ad fontes — da vida, do pensamento e da ação cristãos, tal como expressos nas Escrituras e sobretudo no Novo Testamento.
    • Desidério Erasmo e Francisco Ximénes de Cisneros foram os responsáveis por recuperar o texto grego original do Novo Testamento em sua forma mais pura e despojada
    • O humanismo renascentista cultivou um novo respeito pelos textos como tais, o que se transpôs para uma apreciação do Novo Testamento como texto em si mesmo
    • Ulrico Zuínglio, reformador humanista de Zurique, inaugurou seus primeiros sermões tratando o Novo Testamento não como acompanhamento litúrgico, mas como história a ser percorrida sistematicamente
    • Erasmo publicou em 1516 a versão grega do Novo Testamento, o Novum Instrumentum, que revelou que, em Mateus 4:17, Cristo não diz “fazei penitência” — como o tradutor latino Jerônimo (c. 340–c. 420) representa —, mas ordena “arrependei-vos”, mudai os corações — um conceito distinto de transformação pessoal
    • Os Anabatistas Hutteritas chegaram a derivar sua prática de comunidade de bens de Atos 2:44–45
  • Havia um abismo evidente entre a pequena comunidade judaica do século I à espera do Senhor ressuscitado e a Igreja Católica europeia em que Lutero, Calvino e os demais reformadores foram batizados — instituição poderosa, rica, hierárquica e abrangente —, mas os reformistas do século XVI buscavam seus modelos de renovação exatamente naquele corpus antigo e breve que é o Novo Testamento.
    • Um modelo corrente no século XVI para o bispo ideal era extraído da Epístola de Paulo a Tito 1:6–9 — uma norma do século I transposta para a realidade do século XVI
    • O impulso da Reforma derivava sua inspiração de um passado distante e, nesse sentido, nada tinha a ver com a “modernidade”
  • Ao lado do núcleo narrativo do Novo Testamento, as cartas dos Apóstolos — sobretudo as de Paulo — constituíam o manancial doutrinal que Lutero rastreou desde si mesmo, passando por Agostinho e outros.
    • O ensino de Lutero sobre a justificação, fundado na Epístola aos Romanos, inseriu-se num vasto revival de interesse em Paulo no início do século XVI
    • João Colet, na Inglaterra, e Jacques Lefèvre d'Étaples, na França, são figuras representativas desse interesse paulino
    • A transformação cristã na Europa do século XVI foi ditada pelos mandatos do século I
  • O mesmo retorno às origens apostólicas caracterizou os reformistas católicos medievais, da proto-Reforma do século XII ao pontificado reformista de Inocêncio III (r. 1198–1216) e, sobretudo, à vida e realizações de São Francisco (c. 1181–1226).
    • Francisco apaixonou-se por reduplcar a vida de Cristo, especialmente em imitar sua pobreza, tornando-se “pobre por nós neste mundo”
    • A impraticabilidade sublime da regra de Francisco levou a atenuações, mas no século XV franciscanos como Bernardino da Siena (1380–1444) lideraram um movimento “Observante” de retorno ao rigor da regra
    • O revigoramento Observante permeou outras ordens religiosas, inclusive o ramo agostiniano que Lutero ingressou, sob Johann von Staupitz
    • As aspirações de reforma na Europa pré-Reforma devem ser entendidas como um vasto anseio de fazer a Igreja retornar à praxis do Novo Testamento
  • É duplamente importante ver a Reforma — ou Reformas — do século XVI em pleno contexto medieval, evitando a tendência de algumas correntes historiográficas do século XX de apresentar a ação religiosa do período como pretexto para motivações essencialmente seculares, políticas ou econômicas.
    • Historiadores como Oberman e Ozman contribuíram para inserir a Reforma em seu contexto medieval
    • Príncipes alemães que introduziram a Reforma em seus territórios foram por vezes reduzidos a simples saqueadores de propriedade eclesiástica ou opositores do Carlos V católico
    • Henrique VIII da Inglaterra foi frequentemente apresentado como motivado apenas por luxúrias de sexo e megalomania política
    • O Massacre de São Bartolomeu de 1572 foi por vezes interpretado como resultado de guerra de classes disfarçada de fervor religioso
  • Ainda que casos de oportunismo existissem, é necessário reconhecer que a motivação religiosa foi, em muitos contextos, genuína e determinante para as ações de príncipes e governos citadinos.
    • Gustavo Vasa, ao importar a Reforma para a Suécia, teve motivações ligadas à expansão do poder político e financeiro real
    • Henrique de Navarra teria ponderado que ir à missa era um preço justo para conquistar Paris católica e tornar-se Henrique IV da França — “Paris vaut bien une messe”
    • Os príncipes que desafiaram o poder habsburgo o fizeram, segundo a historiografia alemã moderna, pelo cuidado com as almas de seus súditos, pelos quais se sentiam responsáveis diante de Deus
    • A religião, enquanto tal, foi responsável por violência muito real nas Guerras de Religião francesas, como se conhece também de teatros modernos como a Bósnia e a Irlanda do Norte
  • A fórmula cujus regio, ejus religio — “o governante dita a fé de seus súditos” —, sintetizada na Paz de Augsburgo de 1555, nem sempre funcionou na prática, pois os súditos por vezes impuseram sua religião ao governante.
    • Na Suécia da segunda metade do século XVI, nenhuma manipulação católica real conseguiu desarraigar o luteranismo que o povo havia abraçado
    • Na Alemanha, o eleitor João Sigismundo de Brandemburgo converteu-se ao calvinismo em 1613 sem conseguir arrastar seus súditos luteranos
    • Henrique de Navarra converteu-se ao catolicismo para conquistar a lealdade do povo francês católico — caso em que foram os súditos a ditar a religião do governante
  • As forças populares desempenharam papel fundamental tanto na resistência quanto no apoio à mudança religiosa, como demonstram os atos coletivos de iconoclastia que precipitaram o abandono do catolicismo nas cidades alemãs e suíças na década de 1520 e a revolução religiosa nas cidades dos Países Baixos em 1566.
    • É necessário examinar a proporção entre as iniciativas das corporações citadinas e as demandas do povo comum em cidades como Nuremberg, Estrasburgo e Zurique, ou ainda Londres e Edimburgo
  • Lutero é figura de fascínio particular ao considerar a relação entre os promotores da mudança e a resposta popular, pois sua formação era profundamente acadêmica e, a partir de 1517, tornou-se uma personalidade quintessencialmente popular.
    • Seus cursos exegéticos de 1513–1516 sobre os Salmos e a Epístola de Paulo aos Romanos revelam uma abordagem por vezes abstrusa
    • Lutero pertencia a uma ordem religiosa de longa tradição — os Eremitas Agostinianos — que combinava alta erudição com alcance popular, à semelhança dos Dominicanos e Franciscanos
    • A gênese das Noventa e Cinco Teses — consideradas o tiro de partida da Reforma — derivou das responsabilidades pastorais de Lutero em Wittenberg, onde se preocupou com o desvio do povo pelo ensino falso sobre as indulgências
  • Enquanto Melanchthon tornava-se conhecido como “preceptor da Germânia” — praeceptor Germaniae —, Lutero emergia na década de 1520 como pregador e pastor da nação, papéis vastamente amplificados pela revolução midiática da imprensa.
    • Lutero foi o primeiro indivíduo a fazer uso real do novo meio da imprensa, empregando um método “moderno” para realizar uma tarefa “medieval” — a homilética em grande escala
    • No julgamento na Dieta de Worms de 1521, a acusação centrou-se diretamente nos escritos impressos: “Que os livros sejam nomeados… Martinho Lutero, Sua Majestade ordenou que fostes convocado… para retratar os livros que editastes e difundistes. Refiro-me a todos os livros que escrevestes…”
    • O paradoxo era que o livro foi reconhecido como a questão central num período em que poucos sabiam ler, especialmente no latim — a língua tradicional do discurso religioso
  • A solução para o analfabetismo funcional e para a barreira do latim foi encontrada na entrega crescente de material impresso nas línguas vernáculas europeias, mas no fundo foi a palavra falada e a comunicação oral que estiveram no coração da disseminação da Reforma.
    • Lutero iniciou esse movimento produzindo obras diretamente em alemão ou traduzindo seus escritos latinos para a língua do povo
    • O analfabetismo era contornado pela leitura em voz alta por letrados para analfabetos
  • A imprensa envolvia o tipógrafo como empreendedor que vendia seu produto, e os escritores vernáculos da era da Reforma responderam ao desafio de alcançar um amplo público pagante frequentemente escrevendo de modo vulgar — no pleno sentido da palavra.
    • Pregadores medievais como São Bernardino já buscavam dar ao público o que ele parecia querer — rudeza, comédia e horror
    • Tomás Moro, humanista refinado, escreveu de modo grosseiro e escatológico em seus ataques à heresia — provavelmente fazendo o que os jornalistas fazem, ou seja, dando aos leitores o que se percebe que eles desejam
  • A Reforma coincidiu com as consequências das descobertas de Cristóvão Colombo no Novo Mundo e com o início de um período de 400 anos de dominação europeia do globo, sendo a Igreja Católica a que assumiu a missão cristã na Ásia — predominantemente na Índia, China e Japão.
    • As conquistas espanholas e portuguesas na América do Sul criaram um subcontinente católico
    • Na China, a questão da aculturação — adaptação de uma religião ocidental às tradições orientais — tornou-se central
    • A China conta hoje com cerca de 10 milhões de católicos e 40 milhões de protestantes; a Índia tem mais de 14 milhões de católicos; o Japão tem apenas 500 mil católicos, cerca de 0,35% da população
    • As dificuldades em despir o cristianismo de seu traje cultural ocidental impediram o sucesso pleno dos esforços missionários
  • A Europa moderna percebia a Ásia através de um prisma obscurecido pela presença do poder expansivo dos turcos, cujo poderio militar e naval atingiu seu auge para a Europa central na década de 1520.
    • A vitória turca em Mohács, na Hungria, em 1526, e o cerco de Viena em 1529 marcaram o meridiano dessa ameaça
    • A proximidade da ameaça turca reavivou em Lutero o senso de pavor e antecipação escatológicos
    • A expectativa apocalíptica foi por algum tempo obscurecida na historiografia pelas premissas vitorianas e pós-vitorianas de progresso humano contínuo
    • A partir da década de 1960, em meio à Guerra Fria e à incerteza sobre o futuro da humanidade, desenvolveu-se empatia com o cenário de vigilância escatológica dos europeus modernos
    • O historiador inglês John Foxe intitulou seu grande martirológio Atos e Monumentos Destes Últimos e Perigosos Dias — e o afirmava com seriedade
    • A crença de que o mundo era jovem — uma estimativa do século XVII, baseada em cálculos bíblicos, o situava em 4 mil anos de existência — sem dúvida intensificava a convicção de que era também efêmero
  • As ideologias escatológicas produzem visões de mundo maniqueístas em que os únicos tons são o preto e o branco, gerando extrema violência dirigida contra o outro percebido como alienígena.
    • Para os cristãos modernos, a figura do Anticristo encapsulava o senso de confronto polarizado que desencadeou violência em todas as direções
    • Essa violência foi dirigida, por exemplo, contra bruxas reais ou imaginárias como o outro alienígena
  • Num mundo secular — embora talvez menos na América do que na Europa amplamente descristianizada —, as preocupações dos ancestrais da Reforma e da Contrarreforma podem parecer remotas, e um dicionário pode oferecer algum mapeamento daquele terreno distante.
  • A cronologia da mudança religiosa no século XVI pode ser dividida em quatro períodos de desigual extensão: Gestação, 1500–20; Aceleração e Divisão, 1520–30; Expansão Protestante e Resposta Católica, 1530–62/3; e Conflito, 1562–98.
  • O período de gestação, 1500–20, assistiu à continuação dos impulsos medievais tardios de reforma da vida, dos costumes e das instituições da Igreja Católica, tendo como inspiração modelos escriturísticos do Novo Testamento, com atenção especial às Epístolas de São Paulo e orientação pelos Padres da Igreja, especialmente Santo Agostinho.
    • O slogan amplamente aceito referia-se à renovação do catolicismo “na cabeça e nos membros”, usando a imagem da Igreja como “corpo místico de Cristo”
    • O Concílio Lateranense de 1512–17, ainda que hesitantemente, retomou fios da reforma, por exemplo sobre a educação do clero, e abriu precedente para o Concílio de Trento
    • João Fisher, bispo de Rochester na Inglaterra, e Francisco Ximénes de Cisneros, em Toledo, deram passos importantes na reforma diocesana
    • Estudiosos como João Colet, na Inglaterra, e Jacques Lefèvre d'Étaples, na França, imprimiram momentum humanista cristão às iniciativas de reforma
    • O gênio presidindo todos esses movimentos foi Desidério Erasmo, que se inspirou na renovação moralista da devotio moderna promulgada pelos Irmãos da Vida Comum
    • Erasmo promoveu aguda sátira das corrupções e superstições da Igreja e, em escritos devocionais como o Enchiridion Militis Christiani — “Manual do Soldado Cristão” (1503) —, fomentou fortemente a piedade laica
    • A publicação por Erasmo do Novo Testamento em grego original, em 1516, foi em grande medida o fundamento do avanço de Lutero
  • O segundo período, 1520–30, de aceleração e divisão, foi guiado por Martinho Lutero, cujas aspirações de reforma católica preencheram seus anos mais jovens, mas cuja teologia da justificação pela fé somente era fundamentalmente incompatível com as fórmulas de salvação acumuladas pelo catolicismo.
    • Entre 1520 e 1521, o papado condenou e excomungou Lutero e a Dieta de Worms o proscreve; nos “clássicos da Reforma” de 1520, Lutero retrucou denunciando todo o sistema papal
    • Ao identificar o papado com a figura bíblica do Anticristo, Lutero colocou a reconciliação além de qualquer resgate
    • Nos intercâmbios literários com Erasmo em 1525 sobre a liberdade ou escravidão da vontade, Lutero estabeleceu uma concepção filosófica que queimou todas as pontes intelectuais entre seu movimento e o consenso católico
    • Conciliadores como Gasparo Contarini e Reginaldo Pole, do lado católico, e Filipe Melanchthon, do lado evangélico, continuaram a operar, mas o compromisso foi desacreditado
    • Erasmo, herói do primeiro período, foi crescentemente marginalizado
    • A Confissão de Augsburgo de 1530, adotada por estados e cidades alemãs, impôs o reconhecimento do luteranismo como fato político e religioso
    • Na Suíça, Ulrico Zuínglio de Zurique liderou uma versão diferente de renovação, fazendo uma ruptura mais limpa com o passado católico do que Lutero
    • O anabatismo emergiu como alternativa radical à própria Reforma de Zuínglio a partir de meados da década de 1520
    • O fracasso do Colóquio de Marburg em 1529 confirmou que as Reformas protestantes alemã e suíça deviam ser identificadas como espécies distintas
  • O terceiro período, 1530–63, de expansão protestante e resposta católica, marcou a maré alta do crescimento da nova variante do cristianismo no século XVI, com forte coloração política, exemplificada pela Inglaterra e pela Suécia.
    • A Suécia, novo estado-nação que se separou da Dinamarca em 1523, adotou gradualmente a fé luterana sob Gustavo Vasa, numa Reforma acentuadamente nacional e real
    • Dinamarca e Suécia dividiram entre si a Grande Escandinávia — a Dinamarca governava a Islândia e a Noruega, a Suécia governava a Finlândia —, arrastando todo o extremo norte europeu para fora do campo de Roma
    • A Inglaterra de Henrique VIII encaixou-se no bloco norte-europeu anti-romano, embora suas mudanças religiosas da década de 1530 representassem mais uma declaração de independência do papado do que uma aceitação plena das novas doutrinas alemãs
    • Sob Isabel I, a derrota do puritanismo político — com seu objetivo de converter a Igreja inglesa num espelho das variantes calvinistas reformadas do continente — confirmou o caráter único da Reforma inglesa do “caminho do meio”
    • O protestantismo exigia a tradução dos textos essenciais para as línguas vernáculas nacionais; a Inglaterra, a Escócia e os reinos nórdicos oferecem exemplos clássicos da conexão entre textos litúrgicos vernáculos e o surgimento de uma identidade nacional popular
    • Movimentos evangélicos católicos e células abertamente protestantes cresceram na Espanha e na Itália
    • A resposta católica incluiu as realizações do Concílio de Trento, bispos reformistas como Gian Matteo Giberti e Carlos Borromeu, a fundação dos Jesuítas, papas de nova integridade pessoal e o trabalho defensivo do Índice e da Inquisição
  • O quarto período, 1562–98, foi o da guerra religiosa — propensão herdada das Cruzadas medievais —, cujos prenúncios já apareceram na morte de Zuínglio na Batalha de Kappel em 1531 e na Guerra de Esmalcalda de 1546–47, em que Carlos V tentou coagir toda a Alemanha de volta ao redil católico.
    • A França esteve em guerra por motivos religiosos intermitentemente de 1562 a 1598
    • Os Países Baixos travaram 80 anos de guerra religiosa e política pela liberdade, até que sua independência foi reconhecida em 1648, ao fim da última guerra religiosa europeia, a Guerra dos Trinta Anos
    • Por volta de 1560, o norte europeu era luterano e o sul era católico — fatos consumados praticamente irreversíveis
    • As guerras eram travadas nas terras de ninguém — uma larga faixa de terreno no meio do continente com pertença confessional ainda indecisa
    • A batalha pela alma da França foi absolutamente decisiva; zelotes confessionais, sobretudo Filipe II, sentiram-se plenamente autorizados a intervir nas Guerras de Religião francesas
    • As conquistas de Alessandro Farnese, Duque de Parma, nos anos 1580 nos Países Baixos demonstraram que vitórias militares podiam resultar em reconfigurações confessionais — a “Bélgica” foi reconquistada para a fé católica
    • A derrota da Armada espanhola de 1588 contra a Inglaterra definiu em grande medida alianças religiosas, como também ocorreria na Guerra dos Trinta Anos
    • O mapa religioso da Europa, tal como estava em 1598, depois em 1648 e praticamente o mesmo hoje, sugere que um novo aforismo pode ser apropriado: cujus legio, ejus religio — “o poderio militar decide a fé”
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