Livro 2
LA SUBIDA DEL MONTE CARMELO — LIBRO SEGUNDO
LIVRO SEGUNDO
- O Livro Segundo trata do meio próximo para a subida à união com Deus, que é a fé, correspondente à segunda parte da noite — a noite do espírito — e comentado a partir da segunda canção do poema.
Capítulo 1 — A segunda canção e sua interpretação
- A segunda canção celebra a ventura da alma que se despiu de todas as imperfeições espirituais e dos apetites de propriedade no campo do espírito, façanha mais difícil do que apaziguar a parte sensitiva.
- A fé é chamada escada secreta porque todos os seus degraus são ocultos a todo sentido e entendimento, e a alma que por ela sobe vai disfarçada, mudado o modo natural em divino.
- Caminhar em fé equivale a caminhar às escuras e em cilada para o demônio, pois a luz da fé é para ele mais que trevas, de modo que nada pode prejudicar quem por ela caminha.
- A primeira canção falava de noite escura para a parte sensitiva; a segunda fala de obscuridade ainda maior para a parte espiritual, na qual nem o entendimento nem o sentido retêm qualquer luz própria.
- Quanto menos a alma opera com habilidade própria, mais segura vai, porque vai mais em fé; e ao cessar os anseios do espírito, a alma une-se ao Amado em união de simplicidade, pureza e amor.
Capítulo 2 — A fé como segunda parte desta noite; por que é mais escura que a primeira e a terceira
- A fé corresponde à meia-noite, parte mais interior e mais escura das três que compõem a noite — mais escura que a prima (noite do sentido) e mais escura, a seu modo, que o alvorecer (que é Deus em via de glória).
- A fé é mais escura que a primeira parte porque pertence à porção superior e racional do homem, privando-a de luz racional, ou seja, cegando-a; já o alvorecer é menos escuro por ser imediatamente anterior à ilustração da luz divina.
- O tratamento desta segunda parte abrangerá tanto a prova de que a fé é noite para o espírito quanto os meios de que a alma deve dispor-se ativamente para entrar nela.
Capítulo 3 — Como a fé é noite escura para a alma; prova por razões, autoridades e figuras da Escritura
- Os teólogos definem a fé como hábito certo e escuro da alma, porque faz crer verdades reveladas por Deus que superam toda luz natural e todo entendimento humano.
- Do mesmo modo que a luz solar ofusca qualquer outra luz e cega a potência visual, a luz da fé, por seu enorme excesso, oprime e vence a luz do entendimento, que por si só só alcança a ciência natural.
- O entendimento natural nada pode conhecer senão por via de sentidos e figuras dos objetos; o que lhe é dito sem semelhança sensível não lhe deixa notícia alguma — assim como nada se descreve para um cego de nascença ao falar de cores.
- A fé não é ciência que entra por nenhum sentido, mas apenas consentimento da alma ao que lhe entra pelo ouvido — fides ex auditu —, e por isso priva e cega de quaisquer outras notícias que impediriam julgá-la corretamente.
- A nuvem que separou os filhos de Israel dos egípcios ao entrar no Mar Vermelho — tenebrosa e iluminadora da noite — figura a fé: com sua treva ilumina a treva da alma, e quanto mais a obscurece mais luz lhe dá de si.
Capítulo 4 — Como a alma deve também estar às escuras de sua parte para ser bem guiada pela fé à suma contemplação
- A alma deve permanecer às escuras não apenas quanto às criaturas e ao temporal (parte sensitiva), mas também quanto ao espiritual e a Deus (parte racional), para que a transformação sobrenatural possa operar-se.
- Para vir à transformação sobrenatural, é necessário esvaziar tudo o que pode cair na capacidade da alma — sentidos, entendimento, gosto, sentimento e imaginação —, porque tudo isso é trevas que a fazem errar, enquanto a fé está acima de tudo isso.
- O cego que enxerga um pouco não se deixa guiar completamente pelo seu guia e pode fazê-lo errar; do mesmo modo, a alma que se apoia em algum saber ou gosto próprio de Deus facilmente erra ou se detém por não querer ficar bem cega em fé.
- São Paulo ensina que o que vai unir-se a Deus deve crer seu ser, sem apoiar-se em gosto, sentido, imaginação nem qualquer outro sentido; e Isaías confirma que o que Deus preparou para os que o amam, nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem.
- Entrar neste caminho é deixar o próprio caminho: passar ao que não tem modo, que é Deus, pois o que tem modo limita, e o que supera todo modo é o que o sobrenatural requer.
Capítulo 5 — O que é a união da alma com Deus; uma comparação
- Deus mora substancialmente em toda alma, conservando-lhe o ser; mas essa união substancial é distinta da união de transformação, que só se realiza quando há semelhança de amor — quando as duas vontades, a da alma e a de Deus, estão conformadas.
- Toda criatura, toda ação e toda habilidade criada é dissemelhante ao ser de Deus; por isso a alma deve despir-se de tudo o que é criado — entender, gozar, sentir — para receber a semelhança divina e transformar-se em Deus.
- Deus comunica-se sobrenaturalmente em proporção à conformidade da vontade da alma com a sua; a que está totalmente conforme está totalmente unida e transformada sobrenaturalmente.
- A comparação do raio de sol e do vidro ilumina a doutrina: o vidro impuro recebe pouca luz; purificado de manchas, torna-se ele mesmo como raio — sem perder sua natureza distinta, participa da luz por transformação participada.
- A disposição para a união não é entender, gozar nem sentir de Deus, mas pureza e amor — desnudez e resignação perfeita —, e quanto mais pura estiver a alma, mais plena será a transformação, embora nunca essencial, mas por participação.
Capítulo 6 — As três virtudes teológicas e como produzem vazio nas três potências da alma
- As três virtudes teológicas — fé, esperança e caridade — correspondem às três potências da alma — entendimento, memória e vontade — e fazem vazio e obscuridade em cada uma delas.
- A fé produz no entendimento vazio e escuridão de entender, porque propõe o que não pode ser compreendido; a esperança produz na memória vazio de toda possessão, pois só se espera o que não se possui; a caridade produz na vontade vazio e desnudez de todo afeto que não seja Deus.
- A parábola lucana do amigo que pede três pães à meia-noite significa que a alma, às escuras de tudo segundo suas potências, deve adquirir essas três virtudes nessa noite e nela aperfeiçoar-se.
- Os dois serafins de Isaías — que cobrem os pés (apagando os afetos da vontade), o rosto (treva do entendimento diante de Deus) e voam com as outras asas (esperança levantada sobre o que se possui) — figuram as três virtudes em seu modo de operar.
- Esta é a noite espiritual ativa: o processo pelo qual a alma, por sua parte, vacía as potências espirituais de tudo que não é Deus e as dispõe para a união mediante fé, esperança e caridade.
Capítulo 7 — O quão estreito é o caminho da vida; começo do tratamento da desnudez do entendimento
- Cristo anuncia que a porta é angosta e o caminho estreito, e a partícula quam intensifica o encarecimento: é muito mais angosto do que se pensa; poucos são os que o encontram.
- A porta angosta corresponde à desnudez da vontade de tudo o que é sensível e temporal (noite do sentido); o caminho estreito corresponde à desapropriação do espírito — desnudez e pobreza espiritual, que é o mesmo que aniquilação.
- Muitos espirituais contentam-se com algum retiro e mortificação exterior, mas não chegam à desnudez e pobreza espiritual que o Senhor aconselha, porque antes buscam consolar e vestir sua natureza de consolações espirituais do que desnudá-la e negá-la por Deus.
- O verdadeiro espírito busca o desabrido em Deus mais que o saboroso, inclina-se a padecer mais que ao consolo, e a carecer de todo bem por Deus mais que a possuí-lo — porque buscar a si mesmo em Deus é procurar regalos, enquanto buscar a Deus em si é optar pelo que é mais desabrido.
- Cristo crucificado é o exemplo perfeito desta via de aniquilação: na cruz foi aniquilado quanto à reputação humana, quanto à natureza e quanto ao amparo espiritual do Pai — e foi precisamente nesse momento de máxima aniquilação que realizou a maior obra, reconciliando o gênero humano com Deus.
Capítulo 8 — Nenhuma criatura nem notícia que caia no entendimento pode servir de meio próximo para a divina união
- O princípio filosófico de que os meios devem ser proporcionados ao fim exige que o meio para unir-se a Deus tenha conveniência e semelhança com Deus; ora, entre Deus e qualquer criatura a distância é infinita, de modo que nenhuma pode servir de meio próximo.
- Todas as coisas criadas, incluindo as celestes, são infinitamente distantes do ser divino; David confirma que não há semelhante a Deus entre os deuses (anjos e almas santas) e que o caminho para Deus é caminho santo — pureza de fé.
- Nem a imaginação pode fabricar algo que supere as coisas recebidas pelos sentidos, e todas as criaturas são dissemelhantes a Deus; por isso nada do que a imaginação concebe pode servir de meio próximo para a união.
- Moisés não ousou contemplar Deus na sarça; Elias cobriu o rosto na presença divina no monte — reconhecendo que qualquer coisa considerada particularmente é muito distante e dissemelhante a Deus.
- A contemplação que dá ao entendimento mais alta notícia de Deus chama-se teologia mística — sabedoria secreta, raio de treva segundo Dionísio —, pois para chegar a ela o entendimento deve cegar-se de todas as sendas que ele mesmo pode alcançar.
Capítulo 9 — A fé como meio próximo e proporcionado para a divina união
- A fé é o único meio próximo e proporcionado para a união, porque guarda com Deus uma semelhança tal que a única diferença é ver a Deus ou crer nele: como Deus é infinito, ela o propõe infinito; como é Trino e Uno, ela o propõe Trino e Uno; como é trevas para o entendimento, ela também o cega e deslumbra.
- Quanto mais fé a alma tiver, mais unida estará a Deus; e é sob a névoa da fé escura que o entendimento se une a Deus, pois Deus está escondido sob as trevas, conforme David: as trevas ele colocou debaixo de seus pés.
- As trevas do templo de Salomão, a nuvem e o escuro do Sinai, a voz de Deus do nevoeiro junto a Jó e as urnas de Gedeão figuram a obscuridade da fé sob a qual a Divindade se comunica à alma — trevas que, ao fim desta vida mortal, se rompem e revelam a luz da glória.
Capítulo 10 — Distinção de todas as apreensões e inteligências que podem cair no entendimento
- O entendimento recebe notícias por duas vias: natural (o que alcança pelos sentidos corporais ou por si mesmo) e sobrenatural (o que lhe é dado acima de sua capacidade natural).
- As notícias sobrenaturais dividem-se em corporais e espirituais: as corporais subdividem-se em exteriores (por meio dos cinco sentidos do corpo) e interiores (por meio da imaginação e fantasia); as espirituais subdividem-se em distintas e particulares (visões, revelações, locuções e sentimentos espirituais) e em uma única confusa, escura e geral, que é a contemplação dada em fé.
- O objetivo do tratamento é encaminhar a alma por todas essas apreensões até a contemplação confusa e geral, que é o meio da união; para isso, a alma deve ser desnudada de todas as outras, começando pelas mais exteriores.
Capítulo 11 — Do impedimento e dano das apreensões do entendimento pelas coisas que sobrenaturalmente se representam aos sentidos corporais exteriores
- As representações sobrenaturais que se oferecem aos cinco sentidos exteriores — figuras de santos, luzes, palavras ao ouvido, odores, sabores e deleites no tato — nunca devem ser admitidas nem examinadas quanto à sua origem, pois quanto mais exteriores e corporais são, menos certas são de Deus.
- O sentido corporal é tão ignorante das coisas espirituais quanto um animal das coisas racionais, e a ele é muito mais fácil ao demônio representar coisas enganosas; admiti-las distraia a fé, que é o meio da união.
- Quando uma visão ou sentimento é de Deus, faz seu efeito no espíritu no próprio momento em que aparece, sem que a alma precise querer admiti-lo; o efeito bom se produz passivamente e não depende do querer ou não querer da alma.
- Seis inconvenientes advêm de querer admitir essas representações: diminuição da fé, impedimento do voo do espírito ao invisível, apego que impede a resignação, perda do efeito espiritual delas, perda das mercês de Deus por tomá-las com propriedade, e abertura de porta ao engano do demônio.
- O demônio vai cedendo quando a alma se mostra resignada e contrária a essas representações; Deus, pelo contrário, vai aumentando as mercês nessa alma humilde e desapropriada, como ao servo fiel no pouco.
Capítulo 12 — Das apreensões imaginativas naturais; por que não podem ser meio próximo para a união
- A imaginação e a fantasia, como sentidos corporais interiores, só podem fabricar ou compor figuras a partir do que foi recebido pelos sentidos exteriores; nunca constroem algo de essência superior ao que viram ou ouviram.
- Como todas as criaturas carecem de proporção com o ser de Deus, tudo o que a imaginação figure a semelhança delas também carece dessa proporção, sendo ainda mais distante do que a própria criatura real.
- As formas e imagens da meditação — imaginar Cristo crucificado, Deus em majestade, a glória — são meios remotos úteis para principiantes e servem para dispor o espírito ao espiritual pelo sentido; mas quando a alma já recebeu delas o que tinha a receber, deve deixá-las, assim como se deixam os degraus da escada ao chegar ao destino.
- Muitos espirituais erram porque, querendo Deus recolhê-los a bens mais interiores e retirando-lhes o gosto da meditação discursiva, eles insistem em permanecer nas formas e figuras, encontrando apenas sequidão; o que o espírito pede então é repouso e quietude, não trabalho da imaginação.
- Quando a alma está nessa quietude interior, o que ela experimenta é a notícia amorosa geral de Deus — um ato geral e puro que substitui os atos particulares da meditação —, e forçá-la a retomar o discurso é tirá-la da paz que ela anseia.
Capítulo 13 — Sinais pelos quais o espiritual pode reconhecer que é tempo de deixar a meditação e passar ao estado de contemplação
- O primeiro sinal é não conseguir mais meditar nem discorrer com a imaginação, nem extrair gosto do que antes alimentava o sentido; mas enquanto puder tirar algum fruto da meditação, não deve abandoná-la.
- O segundo sinal é não sentir vontade de fixar a imaginação em outras coisas particulares, exteriores ou interiores; não a vagância involuntária da imaginação, mas a ausência de desejo deliberado de pô-la em algum objeto.
- O terceiro e mais certo sinal — que deve aparecer junto com os dois anteriores — é que a alma goze de permanecer a sós com atenção amorosa a Deus, sem consideração particular, em paz interior e quietude, sem atos discursivos das potências, mas apenas com a atenção e notícia geral amorosa.
- Só com os três sinais reunidos o espiritual pode com segurança deixar a meditação sensitiva e entrar na contemplação do espírito; a presença do primeiro sinal sem o segundo poderia indicar distração, e a presença dos dois sem o terceiro poderia indicar melancolia ou torpor natural.
- A princípio essa notícia amorosa é tão sutil e quase insensível que a alma mal a percebe, especialmente se procura algo mais sensível; mas quanto mais se habitua ao repouso, mais ela cresce e se faz sentir como paz, descanso, sabor e deleite sem trabalho.
Capítulo 14 — Prova da conveniência desses sinais; razão da necessidade do que neles se diz
- A incapacidade de meditar como antes é sinal de que a alma já recebeu o bem espiritual que havia nesse meio, passando da extração laborativa de notícias particulares à posse habitual de uma notícia amorosa geral — assim como o que bebeu água reunida não precisa mais buscá-la pelos arcadouces pesados.
- A meditação gerou muitos atos de notícias amorosas que, pelo uso, se converteram em hábito de notícia amorosa geral e confusa; logo em se pondo em oração, a alma bebe sem trabalho dessa sabedoria reunida, sem necessidade de discorrer por particulares.
- Quem nessa fase insiste em retomar a meditação discursiva é como a criança a quem tiram o seio já reunido e mandam procurá-lo de novo: não encontra a casca já quitada e perde a substância que já tinha nas mãos.
- A notícia contemplativa pode ser tão pura, sutil e desnuda de formas inteligíveis que o entendimento não a percebe, exatamente porque quanto mais limpa e pura ela é, mais escura parece ao entendimento — como um raio de luz sem poeiras ou motas, que torna-se invisível ao olho material por ausência de objetos onde refletir.
- Quando essa notícia divina ocupa toda a alma, produz um olvido tal que, ao despertar, a alma parece ter passado apenas um instante, embora horas se tenham passado; e a oração breve que penetra os céus é exatamente essa, porque não está no tempo, mas em inteligência celestial.
Capítulo 15 — Como os aproveitantes que começam a entrar nessa notícia geral de contemplação podem ainda às vezes valer-se do discurso natural
- Quem começa a ter a notícia amorosa geral de contemplação não necessariamente abandona para sempre a meditação discursiva, pois nos primeiros tempos o hábito de contemplação ainda não está tão perfeito que se possa entrar nela a qualquer momento.
- Enquanto os sinais do capítulo 13 não indicam que a alma está empregada na contemplação, o espiritual deve valer-se com suavidade e moderação do discurso para dispor-se a entrar nela; mas, posto nela, não deve mais trabalhar ativamente com as potências, e sim receber passivamente como quem tem os olhos abertos à luz.
- A alma purificada de todas as formas e imagens se transformará nessa luz pura e simples, que nunca lhe falta mas estava velada pelas formas criadas; quando esses impedimentos forem totalmente removidos, o natural do espírito dará lugar ao divino, porque a natureza não suporta vácuo.
- O aprendizado que o espiritual deve fazer é permanecer com advertência amorosa em Deus, sem descurrer nem imaginar, ainda que lhe pareça não fazer nada; assim, pouco a pouco e muito depressa, infundir-se-á na alma o divino sossego e paz com admiráveis e elevadas notícias de Deus, envoltas em amor divino.
Capítulo 16 — Das apreensões imaginativas sobrenaturais que se representam na fantasia; por que não podem servir de meio próximo para a união
- As visões imaginárias sobrenaturais são aquelas que, sem o auxílio dos sentidos exteriores, Deus ou o demônio representam na imaginação e fantasia — formas, imagens, figuras e espécies diversas que ali fazem assento como em espelho.
- Deus representa ao espírito muitas coisas e lhe ensina muita sabedoria por meio dessas visões; mas o demônio também pode produzir visões aparentemente boas para enganar a alma, como exemplifica o espírito de mentira que enganou os profetas de Acab.
- Nenhuma dessas formas deve ser admitida nem retida, porque a Sabedoria divina — com a qual o entendimento se deve unir — não cai sob modo, limite ou inteligência distinta, sendo totalmente pura e simples; para que dois extremos (alma e Sabedoria divina) se unam, ambos devem estar sem limitação particular.
- O efeito espiritual (inteligência, amor, suavidade) comunicado por essas visões se imprime passivamente na alma no próprio momento em que surgem, sem que ela precise admiti-las; ao negar as formas sensíveis, a alma recebe mais abundantemente o espírito que elas carregam.
- Quanto mais a alma se despoja da vontade e do afeto das formas, imagens e figuras em que vêm envoltas as comunicações espirituais, tanto mais se dispõe a receber essas comunicações com maior abundância, clareza, liberdade de espírito e simplicidade.
Capítulo 17 — O fim e estilo que Deus tem em comunicar ao espírito os bens espirituais por meio dos sentidos; resposta à dúvida levantada
- Deus move todas as coisas segundo seu modo e dispõe tudo com suavidade; portanto, para elevar a alma do extremo de sua baixeza ao extremo de sua alteza em Deus, deve fazê-lo de modo ordenado e suave, começando pelo baixo extremo dos sentidos.
- O processo pedagógico de Deus vai do mais exterior ao mais interior: primeiro aperfeiçoa os sentidos corporais com objetos naturais e depois com comunicações sobrenaturais a eles; depois aperfeiçoa os sentidos corporais interiores (imaginação e fantasia) com meditações e visões imaginativas; e por fim conduz ao puro espírito.
- À medida que a alma avança no trato espiritual com Deus, vai-se mais despindo das vias do sentido; quando chegar ao trato perfeito de espírito, terá evacuado tudo o que podia cair no sentido — assim como quanto mais uma coisa se aproxima de um extremo, mais se afasta do outro.
- O espírito perfeito não faz caso do sentido nem se serve principalmente dele para com Deus, como fazia quando ainda criança no espírito; por isso Paulo diz que, sendo varão, deixou as coisas de criança — e quem permanece agarrado à casca do sentido nunca chega à substância do espírito.
- A alma deve pôr os olhos não nas figuras e objetos que lhe são apresentados sobrenaturalmente, mas no bom espírito que causam, procurando conservar esse espírito em obras de serviço de Deus, porque é esse o fim principal que Deus tem ao comunicá-las.
Capítulo 18 — Do dano que podem fazer alguns mestres espirituais às almas por não as guiar bem acerca dessas visões
- Mestres espirituais que se asseguram nas apreensões sobrenaturais como boas e de Deus podem fazer errar as almas tanto quanto a si mesmos, cumprindo-se a palavra de Cristo: se um cego guiar outro cego, ambos caem na vala.
- O espírito do discípulo forma-se secretamente conforme o do mestre; se o confessor é inclinado ao espírito de revelações e faz delas algum caso, imprimirá no discípulo a mesma estimativa, ainda que não perceba, privando a alma da pureza e desnudez de fé.
- Alguns confessores pedem às almas que solicitem a Deus revelações sobre assuntos particulares, pensando que, porque Deus às vezes responde, isso é bom; mas revelações e locuções de Deus nem sempre se cumprem conforme a interpretação humana, e o acerto ou erro na inteligência delas depende de entender o sentido espiritual, não a letra.
- O principal engano está em que as revelações ou locuções de Deus não saem sempre como os homens as entendem ou como soam em si, porque Deus as leva em vias, conceitos e inteligências muito diferentes do que comumente se entende — as mais verdadeiras são exatamente as que parecem não se cumprir como esperado.
- A conclusão segura e saudável para o mestre e o discípulo é encaminhar a alma para a fé obscura, que é a liberdade de espírito e a abundância de sabedoria e inteligência próprias dos ditos de Deus.
Capítulo 19 — Como, embora as visões e locuções de Deus sejam verdadeiras, podemos nos enganar acerca delas; provas da Escritura
- O engano acerca das revelações divinas ocorre por duas razões: a maneira defeituosa de entendê-las e a variabilidade das causas em que elas se fundam.
- Deus prometeu a Abraão a terra, e ele morreu sem recebê-la em pessoa; prometeu a Jacó a saída do Egito, e ele morreu lá; ordenou a Israel combater Benjamim sem prometer vitória, mas o povo interpretou mal e foi derrotado duas vezes — provas de que o cumprimento é segundo o sentido espiritual e principal, não segundo a letra e o sentido menos principal.
- As profecias de Cristo — que domina de mar a mar, que liberta o pobre do poderoso — foram entendidas temporalmente pelos judeus, que por isso o condenaram; entendidas espiritualmente, eram verdadeiras: seu reino e sua liberdade eram eternos.
- O espiritual que se ata à letra das locuções ou visões não pode deixar de errar muito e encontrar-se depois confuso; a letra mata, o espírito vivifica — e renunciando à letra do sentido, o espírito permanece às escuras em fé.
- O mestre espiritual deve afastar o discípulo de todas as apreensões sobrenaturais e habituá-lo à liberdade e às trevas da fé, em que se recebe liberdade de espírito e abundância de sabedoria e inteligência próprias dos ditos de Deus.
Capítulo 20 — Como os ditos e palavras de Deus, embora sempre verdadeiros, não são sempre certos em suas próprias causas
- Muitas palavras de Deus estão fundadas em causas variáveis — disposições, ações e afetos de criaturas —, de modo que, se a causa mudar, a palavra também pode variar ou deixar de cumprir-se tal como foi dita.
- A destruição de Nínive foi anunciada por Deus e não se cumpriu porque os ninivitas fizeram penitência, cessando a causa que a fundamentava; da mesma forma, a punição prometida a Acab foi diferida porque ele se humilhou.
- Deus às vezes diz coisas não para que sejam entendidas ou possuídas imediatamente, mas para que sejam entendidas quando for conveniente ou quando se consiga o efeito; assim fez com os discípulos, a quem disse muitas coisas que só entenderam ao vir o Espírito Santo.
- A promessa do sacerdócio eterno à casa de Eli foi revogada porque cessou o seu fundamento — o zelo da honra de Deus —, provando que não se deve pensar que os ditos e revelações de Deus hão de infalível e inevitavelmente acontecer como soam, quando ligados a causas humanas variáveis.
- Deus está sobre o céu e fala em caminhos de eternidade; nós, cegos sobre a terra, não entendemos senão vias de carne e tempo — por isso a atitude mais acertada e segura é habituar as almas a fugirem prudentemente de todas as coisas sobrenaturais e a permanecer em pureza de espírito em fé obscura.
Capítulo 21 — Como Deus, embora às vezes responda ao que se lhe pede sobrenaturalmente, não gosta de tal modo; e que muitas vezes se enoja
- Deus pôs ao homem limites naturais e racionais para seu governo; querer sair deles e alcançar coisas por via sobrenatural é coisa não lícita — e Deus se ofende de tudo o que é ilícito, ainda que por condescendência com a fraqueza da alma responda a tais petições.
- Deus condescende com almas fracas que só sabem ir por esse caminho, assim como um pai dá ao filho o prato que pede e não o melhor, para que não fique sem comida; mas isso não significa que Deus goste ou queira esse modo de trato, e pode até encolerizar-se, como com Saúl ao consultar Samuel morto e com Israel ao pedir carne no deserto.
- Não há para nossas necessidades, trabalhos e dificuldades meio melhor e mais seguro que a oração e a esperança de que Deus proverá pelos meios que quiser, como ensina a atitude do rei Josafá na Escritura.
- O demônio facilmente se disfarça no modo como Deus costuma tratar a alma, pondo coisas verossímeis às que Deus comunica; e porque o demônio pode conhecer naturalmente causas e efeitos futuros, profetiza coisas verdadeiras para depois enganar.
- Deus, encolerizado, às vezes dá licença ao demônio para cegar e enganar os que se expõem a visões e revelações fora do ordenado, misturando-lhes espírito de revolta — não causando diretamente o engano, mas retirando sua graça e favor, com o que o erro se segue necessariamente.
Capítulo 22 — Por que não é lícito agora perguntar a Deus por via sobrenatural como o era na Lei Velha
- Na Lei Velha era lícito e até mandado por Deus consultar profetas e sacerdotes, porque a fé ainda não estava fundamentada nem estabelecida a Lei evangélica; tudo o que Deus falava, revelava ou obrava eram mistérios da fé e coisas a ela encaminhadas.
- Agora que a fé está fundada em Cristo e a Lei evangélica manifestada, não há para que perguntar nem para que Deus fale de modo extraordinário: em dar seu Filho, que é sua única Palavra, Deus disse tudo de uma vez — não tem mais que falar.
- Quem agora quisesse alguma visão ou revelação não só faria necidade mas injúria a Deus, pois estaria pedindo implicitamente outra vez a Cristo; todo o pedido deve ser posto nele, onde se encontram escondidos todos os tesouros de sabedoria e ciência de Deus.
- Na Lei Velha, nem a qualquer um era lícito perguntar a Deus diretamente: o vulgo o fazia por profetas e sacerdotes, e mesmo Davi usava a vestidura sacerdotal ou consultava o profeta Natan — pois Deus quer que o trato com o sobrenatural passe pelo arcaduz humano.
- São Paulo, embora tivesse recebido o Evangelho de Deus e não de homem, não deixou de ir conferí-lo com Pedro e os Apóstolos para não ter corrido em vão — exemplo do quanto convém a confirmação pelo conselho humano, e do quanto Deus quer que as coisas sobrenaturais não sejam cridas sem aprovação do mestre espiritual.
Capítulo 23 — Começa o tratamento das apreensões do entendimento por via puramente espiritual; definição
- As quatro apreensões puramente espirituais — visões, revelações, locuções e sentimentos espirituais — se distinguem das corporais e imaginativas porque se comunicam ao entendimento clara e distintamente por via sobrenatural, sem nenhum meio de sentido corporal exterior ou interior.
- Em sentido amplo, todas essas quatro apreensões podem ser chamadas visões da alma, porque o entender da alma é também um ver; e as inteligências que delas se formam no entendimento são visões intelectuais — assim como para os olhos corporais tudo o que é visível causa visão corporal, para o entendimento tudo o que é inteligível causa visão espiritual.
- Falando em sentido próprio e específico: o que o entendimento recebe a modo de ver chama-se visão; o que recebe a modo de apreender coisas novas como se as ouvisse pela primeira vez chama-se revelação; o que recebe a modo de ouvir chama-se locução; e o que recebe a modo dos demais sentidos — sabor, odor, deleite espiritual — chama-se sentimentos espirituais.
- Embora mais nobres, proveitosas e seguras que as apreensões corporais imaginativas, estas apreensões puramente espirituais também podem embaraçar o entendimento e enganá-lo se não houver cautela, pois mesmo elas não são o meio próximo para a união — que é a fé.
Capítulo 24 — Dois tipos de visões espirituais sobrenaturais
- As visões espirituais são de dois tipos: visões de substâncias corpóreas (que o espírito pode ver por luz sobrenatural derivada de Deus, como viu são João a Jerusalém celestial ou são Bento todo o mundo numa visão) e visões de substâncias incorpóreas (anjos, almas), que requerem a luz da glória e por isso não são desta vida mortal.
- As visões de substâncias incorpóreas, em sua essência, implicariam a saída da carne; as raríssimas exceções — como as de Paulo, Moisés e Elias — foram feitas com Deus salvando e amparando a condição natural por via de passagem.
- As visões de substâncias corpóreas fazem em a alma efeitos de quietude, iluminação, alegria, suavidade, limpeza, amor e humildade; as do demônio causam sequidão, inclinação a estimar-se e a admitir as visões, sem brandura de humildade nem amor de Deus.
- Mesmo essas visões de substâncias corpóreas não podem servir de meio próximo para a união — que é a fé —, porque são de criaturas com quem Deus não tem proporção essencial; a alma não deve guardá-las como tesouro, porque o que mais incita ao amor e à contemplação é a fé pura e desnuda, que vai muito além de qualquer forma ou figura.
- A caridade e a fé aprofundam-se na alma à medida que ela se esvazia e escurece; e assim quanto mais a alma se aniquila acerca de coisas exteriores e interiores, tanto mais se infunde de fé, caridade e esperança, pois as três virtudes teológicas andam juntas.
Capítulo 25 — As revelações; definição e distinção
- Revelação é o descobrimento de alguma verdade oculta ou a manifestação de algum segredo ou mistério: pode consistir em declarar ao entendimento a verdade de uma coisa, ou em descobrir à alma o que Deus fez, faz ou pensa fazer.
- As revelações dividem-se em dois gêneros: noticias intelectuais (que consistem em fazer Deus conhecer à alma verdades desnudas, tanto temporais quanto espirituais) e manifestação de segredos e mistérios ocultos (que são propriamente revelações no sentido estrito).
Capítulo 26 — Das inteligências de verdades desnudas no entendimento; como são de duas classes e como a alma deve comportar-se nelas
- As notícias de verdades desnudas acerca de Deus nunca são de coisas particulares, por serem acerca do Sumo Princípio; o que o entendimento recebe é um toque da alma na Divindade, e o próprio Deus é o que ali é sentido e gozado, de modo que o demônio não pode imitá-lo nem infundir sabor semelhante.
- Um único desses toques de Deus na substância da alma pode quitar de uma vez todas as imperfeições que ela não havia conseguido vencer em toda a vida, e deixá-la animada para padecer muito por Deus — com tanto brânio que lhe é passão particular ver que não padece o suficiente.
- A alma não tem que fazer nada ativamente nessas notícias — nem querê-las nem não querê-las —, mas apenas comportar-se com humildade e resignação; Deus as comunicará quando quiser, vendo a alma humilde e desapropriada.
- O segundo tipo de notícias de verdades desnudas — acerca das criaturas — inclui o conhecimento da verdade das coisas em si e dos fatos e casos entre os homens; o espírito purgado conhece com grande facilidade, por indicações exteriores, o que há no coração ou no espírito interior das pessoas.
- Todas essas notícias, venham de Deus ou não, pouco aproveitam e muito podem prejudicar se a alma se apega a elas; o conselho é negá-las sempre, caminhar a Deus pelo não saber e dar conta ao confessor ou mestre espiritual.
Capítulo 27 — O segundo gênero de revelações: descobrimento de segredos e mistérios ocultos
- As revelações de segredos ocultos podem referir-se ao que Deus é em si (incluindo o mistério da Santíssima Trindade) ou ao que Deus é em suas obras (os artigos da fé, as promessas, as ameaças, os acontecimentos acerca do mundo, reinos, províncias, famílias e pessoas particulares).
- Quanto às revelações de coisas particulares diversas da fé, o demônio mete tanto a mão nelas que é impossível não ser enganado em muitas, pois ele as assenta tão fixamente no sentido e na imaginação que parecem indiscutíveis; a alma pura, cauta, simples e humilde deve resistir às revelações e visões com a mesma força com que resistiria a tentações muito perigosas.
- Importa muitíssimo fechar os olhos às revelações novas mesmo que parecendo confirmação das antigas: são Pedro, após ter visto a glória de Cristo no Tabor, preferiu apontar a palavra profética já revelada como testemunho mais firme, encaminhando para a fé.
Capítulo 28 — As locuções interiores que sobrenaturalmente podem acontecer ao espírito; quantas espécies existem
- As locuções sobrenaturais que ocorrem ao espírito, sem meio de sentido corporal, reduzem-se a três espécies: palavras sucessivas (que o espírito recebe como de terceira pessoa enquanto está recolhido em alguma consideração), palavras formais (que terceira pessoa lhe diz formalmente, sem que esteja recolhido) e palavras substanciais (que também são formais, mas imprimem substancialmente na alma a virtude e substância do que significam).
Capítulo 29 — As palavras sucessivas; sua causa, proveito e dano possível
- Quando o espírito está recolhido e absorto em alguma consideração, pode ir discorrendo de um ponto a outro formando palavras e razões muito a propósito — coisas que ele mesmo não sabia —, de modo que lhe parece ser outra pessoa que interiormente raciocina, responde ou ensina.
- O Espírito Santo iluminador age pelo canal do entendimento recolhido unido à verdade: a voz é do entendimento que forma as razões, mas o conteúdo vem de outra parte — a voz é de Jacó e as mãos são de Esaú.
- Há grande engano potencial nesses discursos: a luz que se comunica às vezes é muito sutil para que o entendimento se forme bem nela, e ele então forma razões de si mesmo, que podem ser falsas ou deficientes; por isso não se deve batizar como “disse-me Deus” o que frequentemente a própria alma se diz a si mesma.
- O demônio também mete muito a mão nessas palavras sucessivas, especialmente nos que têm fixação a elas, induzindo conceitos e razões verossímeis por sugestão; é pelo canal dessas locuções que ele se comunica com alguns hereges, formando-lhes conceitos sutis, falsos e errôneos.
- A cautela necessária é não fazer caudal nenhum dessas coisas e fundar a vontade em fortaleza de amor humilde, obrar de verdade e padecer imitando o Filho de Deus — porque esse é o caminho para todo bem espiritual, não os muitos discursos interiores.
Capítulo 30 — As palavras formais interiores; dano possível e cautela necessária
- As palavras formais diferem das sucessivas porque terceira pessoa as diz formalmente ao espírito sem que ele ponha nada de sua parte, e podem ocorrer também quando o espírito não está recolhido no assunto sobre o qual lhe falam.
- Quando são de Dios, essas palavras sempre produzem no alma prontidão e clareza para o que ordenam ou ensinam, embora às vezes não retirem a repugnância e dificuldade — Deus frequentemente deixa repugnância quando manda coisas de majoría, para maior ensinamento e humildade da alma.
- Ao contrário, quando as palavras são do demônio, nas coisas de maior valor ele põe facilidade e prontidão, e nas de baixeza repugnância — porque Deus aborrece a inclinação das almas para as majoritárias.
- De todas essas palavras formais, a alma não deve fazer mais caso do que das sucessivas: ocuparia o espírito no que não é meio legítimo e próximo para a união, e poderia ser facilmente enganada pelo demônio, já que os efeitos das falsas e das verdadeiras podem assemelhar-se em sua intensidade sobre os imperfeitos.
- Tudo o que essas palavras disserem deve ser manifestado ao confessor maduro ou a pessoa discreta e sábia; e se não se encontrar essa pessoa experiente, mais vale não dar parte a ninguém, porque facilmente se encontrarão pessoas que destruam a alma em vez de edificá-la.
Capítulo 31 — As palavras substanciais interiores; diferença em relação às formais, proveito e resignação devida
- A palavra substancial não apenas se diz formalmente ao espírito, mas produz e causa substancialmente na alma aquilo que significa: se Deus diz “Sê bom”, a alma imediatamente é boa; se diz “Ama-me”, imediatamente sente em si substância de amor; se diz “Não temas”, imediatamente sente grande fortaleza.
- A alma não tem que fazer nada nessas palavras: não tem que obrar o que elas dizem (pois Deus mesmo o obra nela), nem tem que querer ou não querer (pois nem o querer é necessário nem o não querer basta para impedir o efeito), nem tem que temê-las (pois o entendimento e o demônio não podem produzir passivamente efeito substancial na alma sem um pacto voluntário prévio).
- Essas palavras substanciais servem muito para a união da alma com Deus; quanto mais interiores, mais substanciais são e mais aproveitam — e a alma que as recebe está em grande ventura, porque cada uma delas faz mais bem do que tudo o que a alma fez em toda a sua vida.
Capítulo 32 — Das apreensões que o entendimento recebe dos sentimentos interiores sobrenaturais; causa, espécies e modo de comportar-se
- Os sentimentos espirituais distintos são de dois tipos: os que ocorrem no afeto da vontade e os que ocorrem na substância da alma; os da vontade, quando de Deus, são muito elevados; os da substância da alma são altíssimos e de grande bem e proveito.
- Desses sentimentos, frequentemente redunda no entendimento uma apreensão de notícia ou inteligência — um altíssimo sentir de Deus saborosíssimo ao entendimento, ao qual não se pode pôr nome do mesmo modo que não se pode nomear o sentimento do qual provém.
- Para não errar nessas notícias nem impedir seu proveito, o entendimento não deve agir ativamente, e sim comportar-se passivamente — assim como ocorre com as palavras sucessivas, cuja atividade natural do entendimento turba e desfaz as notícias delicadas que são uma saborosa inteligência sobrenatural.
- O entendimento não deve procurar nem ter gana de admitir essas notícias, para que não vá de si mesmo formando outras, nem o demônio encontre entrada com outras várias e falsas; a atitude deve ser resignada, humilde e passiva, porque passivamente as recebeu de Deus e ele as comunicará quando for servido.
- Qualquer coisa que à alma aconteça acerca do entendimento encontrará cautela e doutrina nas divisões já expostas ao longo do Livro Segundo, onde toda inteligência pode ser reduzida a uma das categorias tratadas.
