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DEUS E JESUS

Joaquim Carreira das Neves, “Escritos de São João”

O prólogo de João abre com a afirmação: “No princípio existia o Verbo; / o Verbo estava em Deus (em direção a Deus); / e o Verbo era Deus (era divino?)”. Assim sendo, o Verbo não se confunde com Deus. São duas entidades distintas com funções também distintas e complementares, embora o Logos (Jesus e Senhor) também seja chamado de Deus (1, 18; 20, 28: “Meu Senhor e meu Deus!”; cf. 10, 30). Em 5,18, Jesus é acusado de se “fazer igual a Deus” e o mesmo em 10,33. A relação do Filho com o Pai tem a ver com a dimensão de revelação que perpassa todo o evangelho.

Tudo começa com a noção de Jesus como shaliah de Deus. De fato, a figura do shaliah é uma categoria funcional e ministerial judaica. Literalmente, é o enviado de Deus, o seu delegado ou “alter ego” com a missão de representar o mesmo Deus. Segundo a doutrina normal dos rabis, o shaliah é “o enviado que tem o mesmo poder de quem o envia”, ou “o agente igual a quem o envia” (m. Ber. 5, 5;b. B. Mês. 96a; h. Hag. 10b; b. Menag. 93b; b. Nazir 12b; b. Quidd. 42b, 43a). Quem lida com o shaliah é como se lidasse com quem o enviou. E desta maneira que se devem entender os anjos/arcanjos como “enviados de Deus”, Gabriel e Miguel, os patriarcas Enoque e Moisés, ou os atributos divinos personificados (Sabedoria / Palavra).

O Logos de Jo 1,3 é o agente divino pelo qual Deus tudo criou:“Por ele é que tudo começou a existir; / e sem ele nada veio à existência”. Esta Palavra (Jesus Cristo) exerce algumas das prerrogativas divinas do próprio Deus do Antigo Testamento. Os textos que vamos citar sobre algumas dessas prerrogativas são classificados pelos exegetas como textos de “escatologia realizada” ou “escatologia presentista” — os tempos finais de Deus acontecem com Jesus. Assim acontece com a teologia do julgamento divino (5, 22: “O Pai, aliás, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento”; 5,27:“e deu-lhe o poder de fazer o julgamento, porque ele é Filho do Homem”; 5, 30: “Por mim mesmo, eu não posso fazer nada: conforme ouço, assim é que julgo…; 8,16:“Mas, mesmo que eu julgue, o meu julgamento é verdadeiro, porque não estou só, mas eu e o Pai que me enviou.”; 8, 26: “Tenho muitas coisas que dizer e que julgar a vosso respeito; mas do que falo ao mundo é do que ouvi àquele que me enviou…”; 9,39: “Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não veem vejam, e os que veem fiquem cegos”; 12, 47-48: “Se alguém ouve as minhas palavras e não as cumpre, não sou eu que o julgo, pois não vim para condenar o mundo, mas sim para o salvar. Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras tem quem o julgue: a palavra que eu anunciei, essa é que o há-de julgar no último dia”). Exerce, igualmente, as prerrogativas de ressuscitar os mortos (5, 21: “Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, também o Filho faz viver aqueles que quer”; 5, 25-26: “Em verdade, em verdade vos digo: chega a hora — e é já — em que 05 mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão, pois, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho o poder de ter a vida em si mesmo”; 5, 28-29: “Não vos assombreis com isto: é chegada a hora em que todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a sua voz, e sairão: os que tiverem praticado o bem, para uma ressurreição de vida, e os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de condenação”; 6, 27: “Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará…”; 6, 35: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome e quem crê em mim jamais terá sede”; 6,39-40:“E a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas o ressuscite no último dia. Esta é, pois, a vontade do meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”; 6,50-51: “Este é o pão que desce do céu; se alguém comer dele, não morrerá. Eu sou o pão vivo, o que desceu do céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente…”; 6,54-58:“Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia…; 10,28:“Dou-lhes a vida eterna, e nem elas hão-de perecer jamais, nem ninguém as arrancará da minha mão”; 11,25-26:“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre…”). Tem poder sobre o sábado, de modo que realiza as obras de vida-salvação ao sábado, tal como o Pai (5, 9-18 (v. 16-18: “E foi por isto, por Jesus realizar tais coisas em dia de sábado, que os judeus começaram a persegui-lo. Naquela altura Jesus replicou-lhes:“O meu Pai continua a realizar obras até agora, e eu também continuo!” Perante isto, mais vontade tinham os judeus de o matar, pois não só anulava o sábado, mas até chamava a Deus seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus”; 7, 21-23: v. 23: “Se um homem recebe a circuncisão ao sábado, para não ser violada a Lei de Moisés, podereis indignar-vos comigo por ter curado completamente um homem ao sábado?”).

Segundo a ortodoxia bíblica de então, só Deus — e ninguém mais — poderia julgar os vivos e os mortos no último dia ou julgamento final, ressuscitar os mortos e trabalhar ao sábado. Pois bem, João apresenta Jesus Cristo, o emissário do Pai, com todos estes poderes divinos. E é precisamente por isto mesmo que os judeus — e muito logicamente — julgam Jesus blasfemo, tal como na tradição sinóptica.

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