User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
biblia:filon:exegese-ex-12-42

EXEMPLO DE EXEGESE (EX 12,42)

Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

O tradutor-comentarista chega ao texto de Êxodo 12, 42: “Esta noite em que o Senhor velou para tirá-los do Egito deve ser uma noite de vigília para os filhos de Israel por todas as gerações”.

É a noite reservada e preparada para a libertação diante do eterno, quando a saída dos filhos de Israel, libertados da terra do Egito. Bem, há quatro noites inscritas no livro das Memórias.

A primeira noite foi aquela em que o eterno se manifestou sobre o mundo para criá-lo. O mundo estava deserto e vazio, e as trevas se estendiam sobre a face do abismo. A memrá (ou palavra) do eterno era a luz, e iluminava. E ele a chamou: primeira noite.

A segunda noite foi quando o eterno se manifestou a Abraão, aos cem anos de idade, e a sua mulher Sara, de noventa anos, para que se cumprisse o que diz a Escritura: será que Abraão vai gerar aos cem anos e a sua mulher Sara vai ter um filho aos noventa anos? Isaac não tinha trinta e sete anos quando foi oferecido sobre o altar? Os céus desceram e baixaram, e Isaac viu suas perfeições e seus olhos escureceram por causa de suas perfeições. E ele a chamou: segunda noite.

A terceira noite foi quando o eterno se manifestou contra os egípcios no meio da noite; sua mão matava os primogênitos dos egípcios e sua destra protegia os primogênitos de Israel, para cumprir a palavra da Escritura: meu primogênito é Israel. E ele a chamou: terceira noite.

A quarta noite é quando o mundo chegará ao fim para ser dissolvido; os jugos de ferro serão quebrados e as gerações perversas serão aniquiladas, e Moisés subirá do meio do deserto e o rei messias virá de cima; um marchará à frente do rebanho e o outro marchará à frente do rebanho, e sua palavra marchará entre os dois, e eu e eles marcharemos juntos.

Esta é a noite da Páscoa para o nome do eterno: noite reservada para a libertação de todo o Israel, ao longo das gerações.

Esta passagem forma um todo e segue uma técnica muito precisa. Em primeiro lugar, todo o desenvolvimento está relacionado com o texto-mãe, o de Êxodo 12, 42. Mais concretamente, deve toda a sua ocasião ao paradoxo de uma noite-vigília, e o autor do midras escolherá então da Escritura quatro noites paradoxais — três, se excluirmos a da Páscoa (a “terceira”), que é o próprio objeto da reflexão exegética. O paradoxo inspira-se sempre no texto bíblico: por que Deus chama de dia o intervalo entre o pôr do sol e a manhã, que normalmente deveria ser chamado de “noite”? Esse paradoxo do primeiro capítulo do Gênesis nos dá o primeiro paralelismo possível. Segunda noite paradoxal: por que Isaac ficou cego, vivendo na noite, quando foi levado aos céus pelo sacrifício de Abraão, sendo os céus a luz perfeita? Esta “noite” merece entrar na lista das noites misteriosas; ela apenas sela os paradoxos da idade de Abraão e Sara. Acompanhada dessa forma, a terceira noite, a da Páscoa, paradoxo de um Deus que vigia quando todos dormem, encontra seu lugar natural nesta série: o cruel jogo de palavras que condena os primogênitos do Egito pelos de Israel (à custa de uma manipulação da letra do Êxodo, já que todos os filhos de Israel são salvos, enquanto apenas perecem os primogênitos egípcios) justifica essa atividade noturna do eterno. Finalmente, simétrica à criação, a quarta noite será a da dissolução do mundo, incluindo a lua, as estrelas e o sol. Assim, ocupando exatamente o lugar que lhe corresponde, será apenas a palavra do eterno, como no início, que servirá então de luz, último e primeiro paradoxo.

Como vemos imediatamente, foi o jogo entre o alfa e o ômega, considerados simetricamente como semelhantes, que permitiu deduzir a quarta noite; ela é a única que supõe uma projeção no futuro, enquanto as outras seguem a letra da história passada. Será então uma invenção gratuita? Não; acaso a letra de Êxodo 12, 42 não se refere a “ao longo de todas as gerações”? esse “todas” não é apenas algo indefinido, como se bastasse repetir de idade em idade a lembrança da Páscoa transformada em vela; o “todas” abrange as idades, e assim somos obrigados a nos dirigir para o último dia, para a última noite.

Devemos acrescentar que o autor segue essa ideia tão soberba de que não há dia além da noite do mundo (a cegueira de Isaac dá sentido a todos os paradoxos do texto sagrado); além disso, a palavra começa e termina a série, pois servirá de sol no início e no fim do mundo, primeira e quarta noite, enquanto a história de Abraão-Isaac e a dos hebreus saindo do Egito são relacionadas de forma redundante com a Escritura; há uma espécie de envolvimento da Escritura e da palavra que serve de base ao dogma da inspiração divina da própria letra. Finalmente, alegoria por alegoria: se já não há nenhuma noite histórica após a terceira, a da Páscoa, para um judeu, é porque lhe foi pedido que ela fosse perpetuada como uma vela para sempre, apagando ou encerrando dentro de si todas as outras noites, todas as outras libertações.

/home/mccastro/public_html/cristologia/data/pages/biblia/filon/exegese-ex-12-42.txt · Last modified: by 127.0.0.1